quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Romance em estiagem - O livro dos espelhos (2011)

ROMANCE EM ESTIAGEM

A vida, cá na campanha,
andava meio sisuda;
coração feito cacimba
esperando água da chuva.
 
Um dia encilhei o pingo
que restara desta seca
e me fui bebendo estrada,
entre nuvens de poeira.
 
Perdido, entre a paisagem,
um par de olhos castanhos...
Chuvarada na campanha!
– Foi-se embora a estiagem –.
 
Na porteira da fazenda
o meu peito descobriu
que o olhar daquela prenda
era de inundar estio.
 
Coração foi na corrente
das corredeiras do rio...
O amor se fez enchente
neste peito tão vazio.
 
No entanto, tamanho encanto
num instante se desfez
e o rio tornou-se pranto...
– De tristeza, me afoguei –.
 
A prenda de olhos castanhos
não me deu seu coração
e eu, aos poucos, fui secando...
– Vi meus olhos rasos d´água –.
 
Me fui voltando “pras casa”,
a galope, no meu pingo
que o sol forte da campanha
já levou em seu estio...
 
Inda lembro da fazenda,
das corredeiras do rio
e do olhar daquela prenda,
que era de inundar estio.
 
Hoje vago nas paragens,
remoendo a solidão
de um romance em estiagem
que secou meu coração.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, p. 75-76)



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