DESCULPE-ME, TENHO ANDADO COM TANTA PRESSA
Desculpe-me, tenho andado com tanta
pressa... que olhar para o lado significa desvio de percurso. Ontem, cansado do
dia, na volta para casa, não cumprimentei meu antigo colega de escola, para não
perder segundos, para não gastar um sorriso. Hoje pela manhã, ao sair de casa,
não fiz carinho no meu cachorro, que me acenava com o rabo, pois teria de
voltar para lavar as mãos. No caminho para o trabalho, não desejei bom dia ao
senhor que me olhou, cortês, porque despenderia muita energia em desfazer meu
semblante sisudo e meu cenho cerrado. No escritório, não notei a arte pendurada
nas paredes. No almoço, não senti a fragrância dos temperos, nem o sabor dos
molhos – e chupar uma bala sem mordê-la se tornou um exercício de paciência tão
exigente... comparável à mais plena meditação. Não vi as flores que me tentaram
a atenção, com suas cores sedutoras. Sequer percebi o perfume que o amor
exalava ao passar por mim incontáveis vezes, em vão. Não olhei para o céu
estrelado a fim de não diminuir a velocidade do carro. Não me refresquei na
chuva para não me molhar. Não olhei para trás porque não havia nada de
importante lá...
Quem vive com
muita pressa acaba deixando-se para trás.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 140)

Uma ótima visão mestre Danilo Kuhn, sucesso amigo pela excelente crônica. Um forte abraço!
ResponderExcluirGracias, amigo! Abraço sem pressa!
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ResponderExcluirÓtima crônica! Eu acho que é aquele negócio: não tenha pressa, mas não perca tempo; o equilíbrio. E a tua crônica me fez lembrar do quanto é importante observar a vida ao meu redor. Obrigado! Abraços fraternos e literários!
ResponderExcluirGrato, irmão de pena! O universo é hermético, e a vida e tênue equilíbrio! Grande abraço.
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