terça-feira, 15 de setembro de 2020

As chagas da escravidão - O livro dos espelhos (2011)

AS CHAGAS DA ESCRAVIDÃO

Foi numa manhã de agosto,
a geada trincava o pasto
e o negro apertava o passo,
sumia na cerração...
 
E, consigo, os pés descalços...
Junto às correntes de aço
levava, no seu encalço,
as chagas da escravidão.
 
A manhã, na Casa Grande,
despertava espanto e alarde
e os de coração covarde
davam início à caçada.
 
Foge o negro, o animal...
Tratavam-no como tal.
– Nasce pra ser serviçal,
não tem alma, não tem nada –.
 
Na verdade, estratagema!
O branco que impunha algemas,
sem ter pudor nem ter pena,
ante o escravo era inferior.
 
Pois aquele que escraviza
que não tem alma... a precisa!
Não vale o chão onde pisa!
Não honra ao nome Senhor...
 
...E o Senhor da Sesmaria
de crueldade sorria,
pois até o fim do dia
teria sangue nas mãos:
 
“– Se dentro das minhas terras
algum negro se desgarra,
trago de volta na marra,
sob severa punição”!
 
E, de fato, era um açoite...
Por três dias e três noites,
ferro quente e chicote
e intermináveis torturas...
 
E, mais cedo ou mais tarde,
dependendo de sua sorte,
encontrava-se co´a morte
a sofrida criatura.
 
E o negro bem sabia
da soberba e tirania
do Senhor da Sesmaria,
da monarquia em seu trono.
 
Num ato de valentia,
deu-se a própria alforria
naquela manhã tão fria
quanto à alma do seu dono.
 
Escafedeu-se o vassalo
e nenhum branco a cavalo
jamais conseguiu achá-lo
na imensidão da pampa...
 
Dizem que, lá no rincão,
os puros de coração,
em manhãs de cerração,
inda veem sua estampa...

Quanto à velha Sesmaria,
da soberba e tirania,
hoje é terra e moradia
pros descendentes de escravos.
 
E à família do Senhor,
por semear tanto horror,
não sobrou nenhum valor...
Do passado são escravos!
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 83-84)



segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Vento, água, areia e pedra - O livro dos espelhos (2011)

VENTO, ÁGUA, AREIA E PEDRA

Vento leva a dor embora,
fome a esperar o pão.
A linha do horizonte
corre na palma da mão.
 
Rede, lagoa ferida,
barco sem ter direção.
Vai a vida contra o tempo
navegando sem razão.
 
Vento, água, areia e pedra
nas margens da solidão;
há tanto pranto contido
dentro do meu coração.
 
Vida passa, pé de vento,
clima ao avesso no chão.
O homem sem sentimento
água turva, inundação.
 
Coração feito de pedra
o tempo não perdoa, não.
Quem planta sonhos no vento
colhe só desilusão.
 
Vento, água, areia e pedra
nas margens da solidão;
há tanto pranto contido
dentro do meu coração.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 79)



 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Romance em estiagem - O livro dos espelhos (2011)

ROMANCE EM ESTIAGEM

A vida, cá na campanha,
andava meio sisuda;
coração feito cacimba
esperando água da chuva.
 
Um dia encilhei o pingo
que restara desta seca
e me fui bebendo estrada,
entre nuvens de poeira.
 
Perdido, entre a paisagem,
um par de olhos castanhos...
Chuvarada na campanha!
– Foi-se embora a estiagem –.
 
Na porteira da fazenda
o meu peito descobriu
que o olhar daquela prenda
era de inundar estio.
 
Coração foi na corrente
das corredeiras do rio...
O amor se fez enchente
neste peito tão vazio.
 
No entanto, tamanho encanto
num instante se desfez
e o rio tornou-se pranto...
– De tristeza, me afoguei –.
 
A prenda de olhos castanhos
não me deu seu coração
e eu, aos poucos, fui secando...
– Vi meus olhos rasos d´água –.
 
Me fui voltando “pras casa”,
a galope, no meu pingo
que o sol forte da campanha
já levou em seu estio...
 
Inda lembro da fazenda,
das corredeiras do rio
e do olhar daquela prenda,
que era de inundar estio.
 
Hoje vago nas paragens,
remoendo a solidão
de um romance em estiagem
que secou meu coração.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, p. 75-76)



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Romance do amanhecer - O livro dos espelhos (2011)

ROMANCE DO AMANHECER

O sol desnudava a pampa
em carícias luzidias,
cavalgando campo à fora,
transformando noite em dia
 
e, enquanto amanhecia,
despertava, a cada afago,
nas coxilhas já desnudas
todos amores do pago.
 
Terra e céu, pampa e sol
um só ser agora são;
entre rubores de aurora,
brisa em suave canção.
 
Silente, o tempo esvaía,
sorrateiro, sem alarde,
lembrando que a noite fria
se impõe ao cair da tarde.
 
Sangrado, o amor poente,
quando o dia foi embora,
adormeceu no horizonte,
esperando a nova aurora.
 
E amanhã pampa e sol
hão de se amar novamente,
trazendo lume ao dia,
arrebol do amor nascente.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 73)
 



terça-feira, 25 de agosto de 2020

Quando o mate sorve a gente - O livro dos espelhos (2011)

QUANDO O MATE SORVE A GENTE

Quando o mate sorve a gente,
invernia e solidão
dão lugar à água quente,
que aquece o coração.
 
Quando o mate sorve a gente,
afogam-se todas mágoas;
da mão brota uma vertente
de onde o pranto deságua.
 
Da taipa, vejo águas calmas
e um verde por todo o chão...
Quem mateia lava a alma
no açude do chimarrão!
 
Quando o mate sorve a gente,
a saudade é erva buena:
no carijo, insistente,
o braseiro cura as penas.
 
Quando o mate sorve a gente,
no amargor das madrugadas,
o doce gosto se sente
dos beijos da prenda amada.
 
Da taipa, vejo águas calmas
e um verde por todo o chão...
Quem mateia lava a alma
no açude do chimarrão!
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 71)


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O pescador e o amor - O livro dos espelhos (2011)

O PESCADOR E O AMOR

O luar, sobre a lagoa,
abre uma trilha prateada.
A onda que beija a proa
suspira, apaixonada.
 
A canção que o vento sopra
faz a alma içar velas.
E... o coração galopa
navegando sob estrelas.
 
O céu aponta caminhos,
é o mapa do pescador.
Há cardumes de carinho
nas águas fundas do amor.
 
A aurora, ilusionista,
traz, em si, uma aquarela.
No horizonte, Deus artista
pinta sua mais nova tela.
 
A lagoa e o arrebol,
num quadro emoldurado,
refletem raios de sol,
lumiando o barco ancorado.
 
O céu aponta caminhos,
é o mapa do pescador.
Há cardumes de carinho
nas águas fundas do amor.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 69)


terça-feira, 18 de agosto de 2020

As rédeas do vento - O livro dos espelhos (2011)

AS RÉDEAS DO VENTO

 
Chamamé tomou as rédeas do vento
pra cavalgar no céu azul da pampa
e, céu afora, nuvem branca à cabresto,
matou a sede no espelho das sangas.
 
Dia a dia, em seu celeste reponte,
rebanhos de raios-de-luz-de-auroras
e bandos de estrelas que, do horizonte,
refletem o infinito nas esporas.
 
E chamamé recorreu a querência
repontando a luzidia tropilha
e o pago inteiro se encheu de esperança
por chamamé ecoar nas coxilhas.
 
Chamamé tomou as rédeas do vento
pra cavalgar no céu azul da pampa
e fez dançar as folhas na mata
aos primeiros raios de sol da manhã.
 
Dos vaga-lumes, do clarão lua
nos olhos dos bichos, açudes e rios,
o lume da tropa que, em noite escura,
ao reponte de chamamé luziu.
 
E chamamé recorreu a querência
repontando a luzidia tropilha
e o pago inteiro se encheu de esperança
por chamamé ecoar nas coxilhas.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 67)


 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Amanhecer de milonga - O livro dos espelhos (2011)

AMANHECER DE MILONGA

 
A milonga, em sua aurora,
abre as cortinas da noite;
vislumbra a pampa, lá fora,
da janela do horizonte.
 
A milonga amanhece
tão sonora e luzidia...
Como se fosse uma prece,
abençoa as sesmarias.
 
Milonga do amanhecer,
traz, pra alma, claridade.
O sol que nasce na pampa
chega na hora do mate.
 
A milonga, já desperta,
num instante se faz dia;
é quero-quero em alerta
no topo de uma coxilha.
 
A milonga, em plenitude,
é o dia que se prolonga.
Há, no espelho do açude,
distraída, uma milonga...
 
Milonga do amanhecer,
traz, pra alma, claridade.
O sol que nasce na pampa
chega na hora do mate.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 65)
 


 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A voz da América do Sul - O livro dos espelhos (2011)

A VOZ DA AMÉRICA DO SUL

 
Calou-se a voz da América do Sul,
levou com ela a dor do nosso adeus;
nas asas de um condor, no céu azul,
sua alma, clara, foi morar com Deus.
 
Nos ranchos, toscos, se acenderam velas
e de silêncio revestiu-se a pampa.
O aço perde o fio, se destempera,
mas a palavra é espada de quem canta.
 
A América ouvia a sua voz
como se fosse o som de nossas almas.
Um rio não morre ao encontrar a foz,
são só suas águas que se alargam, calmas.
 
Eu só peço a Deus, em nome dos pobres;
nós somos filhos do mesmo abandono.
A terra abriga humildes casebres
e nos casebres, se abrigam os sonhos.
 
Em cada verga, em cada semente,
na esperança, cega, do semeador,
em cada sanga , dormindo silente...
Tu viverás, nos aguapés em flor.
 
A América ouvia a sua voz,
como se fosse o som de nossas almas.
Um rio não morre ao encontrar a foz,
são só suas águas que se alargam, calmas.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 63)
 


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Poema do tempo - O livro dos espelhos (2011)

 POEMA DO TEMPO

O tempo não passa lento ou depressa,
somos nós em suas mãos de ventríloquo;
o tempo não passa, ele está.
 
Há areia movediça na ampulheta do tempo;
o tempo tem sede da gente.
 
Faz tempo que o tempo teima em me roubá-lo a si.
 
O tempo é o que foi, o que é, o que será, e o que teria sido
ou não.
 
O tempo é o pior ladrão:
tempo é o que escorre por entre os dedos e nos leva junto.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 59)


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Pensamentos - O livro dos espelhos (2011)

PENSAMENTOS

 
Pensamentos são formas
semi-transparentes-multicores
que se aproximam e se afastam,
cada um a seu tempo,
de nossa percepção,
olhos fechados ou não.
 
Minhas ideias são tão densas
que se comprimem,
se empurram pelo meu foco,
e tão rarefeitas
que me vêm não sei de onde,
como, e por que.
 
Odeio quando meus pensamentos
cantam mais alto que as músicas do meu player...
 
Temos um inconsciente vivo dentro de nós.
Escuta?
 
O pensamento
é uma extensão de nós;
é o eu projetando-se.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 57)



terça-feira, 4 de agosto de 2020

Nas entrelinhas da pauta - O livro dos espelhos (2011)

NAS ENTRELINHAS DA PAUTA

 
Nas entrelinhas da pauta,
acidentes ocorrentes
não atrapalham o trânsito...
Deixam-no mais fluente.
 
Tons vizinhos e de empréstimo
convivem em harmonia,
embora o descompasso
em que se vive hoje em dia.
 
Quem faz da alma instrumento
e sente o mundo em melodia,
não joga notas ao vento...
Revela-se, entre linhas.
 
Nas entrelinhas da pauta,
a clave de sol nascente
desperta acordes dormidos
num campo harmônico distante.
 
Em contraponto à realidade
quase não se sente falta
de destino certo e repouso
nas entrelinhas da pauta.
 
Quem faz da alma instrumento
e sente o mundo em melodia,
não joga notas ao vento...
Revela-se, entre linhas.
 
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 55)
 

Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...