segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Quando nos fazemos vidro - Crônicas afônicas (2014)

QUANDO NOS FAZEMOS VIDRO

Você me deixou sem visão, quebrou meu olhar. Estranha sensação. Logo eu que me julgava tão forte, agora estou aqui, em cacos. Fiz-me tão frágil quanto uma vidraça. Deixamo-nos quebrar quando nos fazemos vidro.

Agora, cada passo é calculado. É como caminhar às escuras num lugar desconhecido: passo a passo, pisando em cacos, os demais sentidos aguçados. Parece que fiquei mais forte... Estranho: se as aparências me enganaram, nada mais se parece.

Nenhum gesto eu aceno em vão. Não cometo exageros. Tudo medido. Eu sempre tenho os pés no chão, passo a passo, pisando em cacos. Quando se perde a visão, se presta mais atenção aos pensamentos, se diz e se faz melhor dito e melhor feito.

O brilho mentiroso das palavras já não me convence mais: suas roupas são outras; escuto as entrelinhas... Quando se perde a visão, se ouve cada trejeito, cada expressão, cada silêncio, cada respiração.

O cheiro do vento me traz notícias, é o meu jornal. Denuncia, a quilômetros, quem se aproxima e sua intenção. Quando se perde a visão, se percebe o idioma do olfato, se fareja o perigo, a oportunidade, a presa, o predador, a dança das árvores e do riacho.

Decoro cada rosto pelo sabor de suas atitudes. Pessoas doces, educadas, pessoas amargas, amarguradas. Quando se perde a visão, o paladar descobre temperos improváveis.

Tateio lembranças, acaricio amores, abraço ausências, golpeio remorsos. Sinto escorrer por entre os dedos o tempo que perdi e o que ainda me resta. Quando se perde a visão, novas texturas vêm fazer parte do contexto.

Cada perda dá algo. Cada derrota conquista algo. Cada vez que se cai é uma oportunidade para se levantar. Cada vez que nos deixamos quebrar é uma oportunidade para nos refazermos, nos reinventarmos. Quando se quebra o olhar, se amplia a visão de mundo. Fica-se mais forte quando nos fazemos vidro.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 30-31)




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