QUANDO NOS FAZEMOS VIDRO
Você me deixou sem visão, quebrou meu
olhar. Estranha sensação. Logo eu que me julgava tão forte, agora estou aqui,
em cacos. Fiz-me tão frágil quanto uma vidraça. Deixamo-nos quebrar quando nos
fazemos vidro.
Agora, cada
passo é calculado. É como caminhar às escuras num lugar desconhecido: passo a
passo, pisando em cacos, os demais sentidos aguçados. Parece que fiquei mais
forte... Estranho: se as aparências me enganaram, nada mais se parece.
Nenhum gesto
eu aceno em vão. Não cometo exageros. Tudo medido. Eu sempre tenho os pés no
chão, passo a passo, pisando em cacos. Quando se perde a visão, se presta mais
atenção aos pensamentos, se diz e se faz melhor dito e melhor feito.
O brilho
mentiroso das palavras já não me convence mais: suas roupas são outras; escuto
as entrelinhas... Quando se perde a visão, se ouve cada trejeito, cada
expressão, cada silêncio, cada respiração.
O cheiro do
vento me traz notícias, é o meu jornal. Denuncia, a quilômetros, quem se
aproxima e sua intenção. Quando se perde a visão, se percebe o idioma do
olfato, se fareja o perigo, a oportunidade, a presa, o predador, a dança das
árvores e do riacho.
Decoro cada
rosto pelo sabor de suas atitudes. Pessoas doces, educadas, pessoas amargas,
amarguradas. Quando se perde a visão, o paladar descobre temperos improváveis.
Tateio
lembranças, acaricio amores, abraço ausências, golpeio remorsos. Sinto escorrer
por entre os dedos o tempo que perdi e o que ainda me resta. Quando se perde a
visão, novas texturas vêm fazer parte do contexto.
Cada perda dá
algo. Cada derrota conquista algo. Cada vez que se cai é uma oportunidade para
se levantar. Cada vez que nos deixamos quebrar é uma oportunidade para nos
refazermos, nos reinventarmos. Quando se quebra o olhar, se amplia a visão
de mundo. Fica-se mais forte quando nos fazemos vidro.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 30-31)

Nenhum comentário:
Postar um comentário