O BBB
Em tempos de reality shows inócuos, detenhamos nossa atenção à vida real de um
personagem que não faz o tipo e nem é foco da audiência de um BBB.
O Bruno Brasil nasceu pobre, na periferia de Porto
Alegre, no cinturão da cidade. À sua volta, em vez de câmeras, modelos
plastificadas e mocinhos bombados, a realidade nua e crua. Seu pai faleceu
quando o Bruno ainda era uma criança: após mais uma noite inteira de cachaça, o
Seu Olavo afogou-se na sarjeta, em frente à casa do Bruno, que assistiu pela
manhã, atônito, a algazarra da vizinhança, ambulância e tudo mais. Sua mãe, a
Dona Lurdes, sempre fez das tripas coração pela vida do falecido marido e dos nove
filhos, dentre eles o mais novo, o Bruno. No entanto, as quatro meninas
engravidaram pela primeira vez já na pré-adolescência; três delas apanham do
atual marido, e o último marido da outra morreu esfaqueado por traficantes, por
conta de uma dívida. E os demais quatro meninos, exceto o Bruno, caíram todos
no mundo do crime e das drogas: dois morreram em tiroteios com a polícia e dois
morreram espancados por viciados em busca de mais pedra, quando se encontravam,
também, no último nível de dependência do crack.
Mas o Bruno era diferente. Era daquelas almas
iluminadas que nascem num mundo escuro para emprestar sua luz aos que dela
tanto necessitam. E o Bruno fez diferente, fez a diferença...
O Bruno teve a mesma educação e tratamento em casa,
estudou na mesma escola pública e teve as mesmas condições financeiras
miseráveis e os mesmos problemas familiares que seus irmãos, mas nutria dentro
de si uma vontade incontida de alargar seus horizontes. Aos oito anos começou a
aprender teoria musical e flauta doce em um projeto em turno inverso em sua
escola, o que não o impedia de ajudar sua família vendendo balas nas
sinaleiras. Na escola, também fez cursos de violão, poesia, participava do
projeto de canto coral e de toda e qualquer oficina de instrumento musical.
O Bruno nunca desdenhou sua origem humilde e a cor da
sua pele, mas sempre pensou com sua cabeça e elaborou seu próprio gosto
artístico-musical. Aos poucos, foi se interessando pela leitura: buscou livros
de poesia, de história, grandes clássicos da literatura, de filosofia, e de
política. Aprendeu a ter uma visão crítica, sensível e realista sobre o seu
mundo e o mundo lá fora. Nunca desprezou o hip-hop, o rap, o samba, o grafitti, mas percebeu que vários dos projetos desenvolvidos
para preservar a cultura de periferia mascaravam a segunda intenção do voto a
cabresto. Por que não estudar a música e a arte em sua totalidade? Por que
ficar preso às amarras periféricas, se o mundo acena lá fora com um céu aberto
de possibilidades artísticas e de vida?
Cursou faculdade de música e tornou-se professor,
sempre paralelamente trabalhando em outros empregos e ajudando sua família.
Nunca se importou em trabalhar: acreditava que trabalhar era criar, assim como
Deus vê o trabalho. Foi engraxate, gari, garçom, faxineiro, vendedor de roupas
e caixa de supermercado. Atendia às pessoas como se fossem seus amigos, seus
filhos.
Mas foi num curso de extensão do Conservatório que
encontrou sua paixão. Aliás, suas duas paixões: o clarinete e a professora de
clarinete, uma bela inglesa. Casaram-se e o Bruno foi viver na Inglaterra.
Aprendeu respiração circular com um aborígene australiano e tornou-se o mais
notável e incrível clarinetista da mais conceituada orquestra do Reino Unido.
Este ano, sua irmã mais velha o inscreveu,
secretamente, para o Big Brother, uma vaga sorteada, com a intenção de premiar o seu
irmão-herói. Para a surpresa de todos, o Big Bruno Brasil, como é conhecido no Reino Unido, foi sorteado. E
para a surpresa de todos e da família Brasil, o Bruno recusou-se a participar
de um show ilusório, exatamente como ele não vê a vida.
Histórias semelhantes à do Bruno, o nosso BBB, estão por aí
afora, a ornamentar o mundo. É só olhar para o lado. Muitas vezes, a janela da
tua casa mostra histórias mais bonitas e verdadeiras que a telinha da TV.
Se esta história é verídica? Ouvi dizer que para uma
história ser real, basta contá-la...
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 32-34)

Nenhum comentário:
Postar um comentário