quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O BBB - Crônicas afônicas (2014)

O BBB 

 Em tempos de reality shows inócuos, detenhamos nossa atenção à vida real de um personagem que não faz o tipo e nem é foco da audiência de um BBB.

O Bruno Brasil nasceu pobre, na periferia de Porto Alegre, no cinturão da cidade. À sua volta, em vez de câmeras, modelos plastificadas e mocinhos bombados, a realidade nua e crua. Seu pai faleceu quando o Bruno ainda era uma criança: após mais uma noite inteira de cachaça, o Seu Olavo afogou-se na sarjeta, em frente à casa do Bruno, que assistiu pela manhã, atônito, a algazarra da vizinhança, ambulância e tudo mais. Sua mãe, a Dona Lurdes, sempre fez das tripas coração pela vida do falecido marido e dos nove filhos, dentre eles o mais novo, o Bruno. No entanto, as quatro meninas engravidaram pela primeira vez já na pré-adolescência; três delas apanham do atual marido, e o último marido da outra morreu esfaqueado por traficantes, por conta de uma dívida. E os demais quatro meninos, exceto o Bruno, caíram todos no mundo do crime e das drogas: dois morreram em tiroteios com a polícia e dois morreram espancados por viciados em busca de mais pedra, quando se encontravam, também, no último nível de dependência do crack.

Mas o Bruno era diferente. Era daquelas almas iluminadas que nascem num mundo escuro para emprestar sua luz aos que dela tanto necessitam. E o Bruno fez diferente, fez a diferença...

O Bruno teve a mesma educação e tratamento em casa, estudou na mesma escola pública e teve as mesmas condições financeiras miseráveis e os mesmos problemas familiares que seus irmãos, mas nutria dentro de si uma vontade incontida de alargar seus horizontes. Aos oito anos começou a aprender teoria musical e flauta doce em um projeto em turno inverso em sua escola, o que não o impedia de ajudar sua família vendendo balas nas sinaleiras. Na escola, também fez cursos de violão, poesia, participava do projeto de canto coral e de toda e qualquer oficina de instrumento musical.

O Bruno nunca desdenhou sua origem humilde e a cor da sua pele, mas sempre pensou com sua cabeça e elaborou seu próprio gosto artístico-musical. Aos poucos, foi se interessando pela leitura: buscou livros de poesia, de história, grandes clássicos da literatura, de filosofia, e de política. Aprendeu a ter uma visão crítica, sensível e realista sobre o seu mundo e o mundo lá fora. Nunca desprezou o hip-hop, o rap, o samba, o grafitti, mas percebeu que vários dos projetos desenvolvidos para preservar a cultura de periferia mascaravam a segunda intenção do voto a cabresto. Por que não estudar a música e a arte em sua totalidade? Por que ficar preso às amarras periféricas, se o mundo acena lá fora com um céu aberto de possibilidades artísticas e de vida?

Cursou faculdade de música e tornou-se professor, sempre paralelamente trabalhando em outros empregos e ajudando sua família. Nunca se importou em trabalhar: acreditava que trabalhar era criar, assim como Deus vê o trabalho. Foi engraxate, gari, garçom, faxineiro, vendedor de roupas e caixa de supermercado. Atendia às pessoas como se fossem seus amigos, seus filhos.

Mas foi num curso de extensão do Conservatório que encontrou sua paixão. Aliás, suas duas paixões: o clarinete e a professora de clarinete, uma bela inglesa. Casaram-se e o Bruno foi viver na Inglaterra. Aprendeu respiração circular com um aborígene australiano e tornou-se o mais notável e incrível clarinetista da mais conceituada orquestra do Reino Unido.

Este ano, sua irmã mais velha o inscreveu, secretamente, para o Big Brother, uma vaga sorteada, com a intenção de premiar o seu irmão-herói. Para a surpresa de todos, o Big Bruno Brasil, como é conhecido no Reino Unido, foi sorteado. E para a surpresa de todos e da família Brasil, o Bruno recusou-se a participar de um show ilusório, exatamente como ele não vê a vida.

Histórias semelhantes à do Bruno, o nosso BBB, estão por aí afora, a ornamentar o mundo. É só olhar para o lado. Muitas vezes, a janela da tua casa mostra histórias mais bonitas e verdadeiras que a telinha da TV.

Se esta história é verídica? Ouvi dizer que para uma história ser real, basta contá-la...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 32-34)




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