BRIGA DE TORCIDAS
A Luiza e o André se conheceram há pouco tempo, paixão
dessas que não se resiste nem se reflete: se mergulha. Atração fatal, lance de
energia, química do amor. Namoro novo que se reconhece de longe: não se
desgrudam nunca, beijos e carinhos em público, são só sorrisos. Parecem dois
adolescentes, apesar dos vinte e tantos. O amor nos rejuvenesce...
O novo casal realmente tem muita coisa em comum. A
Luiza é estudante de Arquitetura, o André faz faculdade de Engenharia Civil. A
Luiza é fã da culinária italiana, o André adora pizza e macarronada. A Luiza
curte caminhar pelos parques da cidade, o André preza muito o contato com a
natureza. A Luiza ama as crônicas da Martha Medeiros, o André acha o Veríssimo
um cara muito inteligente. A Luiza é fã da Legião Urbana, o André toca Pais e filhos e Eduardo e Mônica no violão. E as semelhanças entre os dois enamorados
por aí vão, interligando cada vez mais o casal a cada descoberta de gosto em
comum.
Mas nem só as semelhanças são benéficas ao amor. A
Luiza gosta de vinho suave, o André de vinho seco. Quando foram jantar juntos
pela primeira vez, o André decidiu pedir vinho suave para agradar a moça. O
amor também é feito de trocas, de renúncia... A Luiza também já cedeu: quando o
André queria ir ao show do Pouca Vogal, ela o acompanhou e deixou de ir à festa
de aniversário da melhor amiga. Todos têm que ceder. Ao menos um pouquinho.
Só que neste fim de semana teve clássico Grenal, e a Luiza é
gremista e o André colorado. Ambos fanáticos. Daí não teve jeito, nenhum dos
dois deu o braço a torcer. Permaneceram ela gremista, ele colorado. Foi o
primeiro Grenal do casal, e foi tudo bem. Cada um vibrou com seu
time, torceu, secou, gritou gol, cada um na sua, e o jogo acabou um a um.
Depois do jogo, abraços, discussão construtiva sobre o jogo, jantarzinho íntimo
e... Um a um no amor.
Se não houvesse respeito entre o casal, talvez
ficassem no zero a zero. Eles souberam aprender a respeitar um ao outro, um ao
time do outro. Nenhum deles diminuiu sua paixão pelo seu time do coração, e nem
comprometeu a sua paixão um pelo outro. Noutros tempos, a Luiza xingaria os
colorados. O André então, nem se fala. Já foi a clássicos e arranjou briga. Mas
hoje em dia entendem que sua paixão não anula a do outro. Cada um de nós tem
suas preferências, e preferir um clube de futebol a outro não nos torna
melhores ou piores que ninguém. Parece um tanto óbvio, mas tem muita gente que
confunde amor ao seu time com ódio ao rival.
Obviamente há a flauta, aquela
brincadeira, a provocação ao torcedor adversário, muitas vezes sadia. A
rivalidade ajuda os clubes a se esforçarem sempre ao máximo para superar o
rival. Mas quando isso descamba para a agressividade, para a violência, tudo
muda de figura.
Nos estádios, nos bares e nas ruas, além de famílias,
além de pessoas de bem, sempre há aquelas pessoas prontas para a briga, com a
intenção da bagunça, com o espírito da baderna. Mais parecem romanos ao
Coliseu. A verdadeira razão de estarem ali é a violência, é a anarquia, e não a
paixão futebolística. O futebol é apenas o bode-expiatório.
O André e a Luiza já combinaram: de vez em quando, um
vai acompanhar o outro nos jogos do Grêmio, e do Inter. Não vão chegar ao ponto
de vestir a camisa do rival, vão à paisana. Mas que mal há nisso? Em acompanhar
o grande amor no jogo do seu time?
Briga de torcidas não combina com o amor. Nem com o
amor homem/mulher nem com o amor ao próximo. Tu escolhes teus amigos pela cor
da camisa? Tu eleges teus relacionamentos de acordo com o clube do coração? Só
compras roupas da cor do teu time? Não aceitarias um bom negócio porque o carro
é da cor do rival? Convenhamos. Não sejamos tão pequenos.
No jogo da vida, ou no do amor, não há espaço para
briga de torcidas. Agita tua bandeira, veste tua camisa, vibra, torce, mas
abraça o teu amigo torcedor rival, beija teu amor adversário. Ou então, vais
ficar no zero a zero.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 38-40)

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