À SOMBRA DA VAIDADE
Nada do que faço faz sentido oposto a mim, é crime ou
contravenção eu me contrariar. Solidariedade? Sou solidário a mim mesmo. Se eu
preciso de mim, lá estou, prontamente, para estender-me a mão.
Mas... É claro que meus planos também incluem outras
pessoas ao meu redor: eu sou o centro! Hahaha! Tudo gira em torno de mim! Meus
desejos, minhas vontades, minhas fantasias... E ninguém me tira satisfação,
não! Não paro enquanto não estiver satisfeito.
A minha imagem no espelho, pálida, olhos vermelhos,
rosto molhado, são armadilhas para me enganar... Eu sei que sou feliz de fato,
sou egoísta e assim me basto, não há motivos nem ninguém para chorar. Pensa
bem! Eu me preocupo apenas comigo mesmo, me responsabilizo apenas pelos meus
próprios atos e estes, interferem apenas na minha vida. Não tenho fardos! Sou
leve, livre, solto.
Se às vezes me apanho em solidão é por vaidade, pois companhias eu tenho a mim mesmo. Converso comigo e nunca há discussão, briga,
desentendimento. Concordo comigo em gênero, número e grau. Nunca vi tanta
sintonia! Também pudera, eu conheço a mim como ninguém, e ninguém conhece tão
bem a mim quanto eu.
Soberba, isto sim eu não suporto, é virtude que é só
minha! Não admito que ninguém além de mim intervenha em meus assuntos. Ninguém
além de mim me corrige, me critica, ou até mesmo me elogia ou me conforta.
Quanto ao amor? É só ilusão! Desiste. Ninguém te ama,
te amou ou vai te amar além de tu mesmo. Eu me amo! Não posso viver sem mim. Eu
me amo, eu me basto, eu me entendo. E acima de tudo, eu me governo, sou meu
Estado, minha lei, minha ordem, meu amor, minha religião, minha vida. Minha
vida, não divido com ninguém, não! Não adianta vir com essa voz gentil, esse
sorriso sincero, esse olhar cristalino, essas palavras luzidias, essas mãos,
essa boca... Na minha vida, não entra ninguém. Entendeu? Ninguém! Eu não
preciso de ninguém... Eu preciso apenas de mim... Eu me amo, eu me basto, eu me
entendo...
Além do mais, eu vivo na santa paz do meu silêncio, da minha solidão, de mim mesmo e ninguém mais.
Nada me incomoda, nada me estressa, nada me conflita, nada me tira do meu centro, nada me desassossega, nada me desconforta... Estou à sombra da minha vaidade.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 24-25)

O personagem é muito egocêntrico!
ResponderExcluirQue a crônica lhe ofereça a contraparte de seu Alter Ego. Abrçs.
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