quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O amor é a lua e o sol, a poesia e a canção - Crônicas afônicas (2014)

O AMOR É A LUA E O SOL, A POESIA E A CANÇÃO

Ele apertou o passo, decidido, sem olhar pra trás; muita coisa ele deixava às costas. Coisas ruins, coisas boas, mas que não mais o deixavam seguir adiante. Caminhando, caminhando, até além do horizonte, pode ver o infinito de si mesmo, em solidão. Muita coisa se vê apenas com o devido afastamento, principalmente quando se tratam de coisas pessoais, íntimas, do âmago. A solidão é boa companheira, quando se precisa estar só. A solidão é boa conselheira, quando se precisa ouvir a si mesmo.

Portanto, não se encontrava sozinho, mesmo estando só: pensamentos lhe faziam companhia. Sua vida mais recente se projetava, se estendia a desdobramentos não ocorridos, mas que poderiam mudar tudo: futuros possíveis de um passado solidificado. O passado é pedra entalhada que não se pode reesculpir. É o mármore do tempo. Somente o pensamento volátil é quem o pode remoldar, a esmo; logo evapora.

No alto da montanha, num papel ele escreveu: O amor é a lua e o sol, a poesia e a canção.

É uma busca eterna, os caminhos de si; cada passo deixa marcas na estrada... Essas pegadas, nem mesmo o tempo pode apagar. Mas, como se costuma dizer, o caminho se aprende caminhando. É justamente o mistério de cada curva, de cada bifurcação, de cada horizonte distante, que torna interessante, excitante a caminhada.

Na vida não há caminhos prontos ou uma só estrada certa; o caminho é descobrir. Descobrir o caminho é uma viagem de autoconhecimento: descobrindo o seu caminho, se descobre a si.

São caminhos tortuosos os do amor. A visão turva a cada curva. O coração é um motor e um motorista cego que, por não ver a estrada, não entende o momento de acelerar, frear, reduzir... Acidentes acontecem. Mas sem o amor, o combustível desse carro, não se chega a lugar algum.

O amor é algo que nos completa e nos aflige, indissociavelmente; lá no alto da montanha, num papel ele anotou: O amor é a lua e o sol, a poesia e a canção.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 28-29)




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...