CRÔNICA AFÔNICA
Desta vez, concebi minha crônica sem final; uma crônica
afônica, cansada de falar, já sem voz; calada perante os olhos desviantes;
atônita frente ao espelho.
Minha crônica consente sua inexistência, assume o
anonimato, faz-se desistir. Suas letras brancas sobre o fundo branco, página
virada antes mesmo de ser lida.
Acometida por doença crônica, minha crônica definha
sem ter nascido.
Àqueles que não a leram, resume-se a
nada. Àqueles que a leram, não passa de ilusão.
Minha crônica-miragem morre de sede no oásis. Minha
crônica-sonho desperta em amnésia.
Seu discurso mudo não mudou o mundo. Suas linhas
tortas são ilegíveis. Seu verso não conversa. Seu verbo não tem verba. Seu
corpo é inócuo, continente sem conteúdo. Sua música: um minuto de silêncio.
Ela não diz nada porque já disse tudo.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 26)

Nenhum comentário:
Postar um comentário