segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Crônica afônica - Crônicas afônicas (2014)

 CRÔNICA AFÔNICA

 

Desta vez, concebi minha crônica sem final; uma crônica afônica, cansada de falar, já sem voz; calada perante os olhos desviantes; atônita frente ao espelho.

Minha crônica consente sua inexistência, assume o anonimato, faz-se desistir. Suas letras brancas sobre o fundo branco, página virada antes mesmo de ser lida.

Acometida por doença crônica, minha crônica definha sem ter nascido.

Àqueles que não a leram, resume-se a nada. Àqueles que a leram, não passa de ilusão.

Minha crônica-miragem morre de sede no oásis. Minha crônica-sonho desperta em amnésia.

Seu discurso mudo não mudou o mundo. Suas linhas tortas são ilegíveis. Seu verso não conversa. Seu verbo não tem verba. Seu corpo é inócuo, continente sem conteúdo. Sua música: um minuto de silêncio.

Ela não diz nada porque já disse tudo.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 26)




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