ELES QUEREM QUE SEJAMOS RASOS
Cada ser é um universo único. Habitam, dentro de cada
um de nós, galáxias desconhecidas de sentimentos, planetas inexplorados de
maneiras de ver o mundo, constelações de ideias, e um vácuo infinito a ser
preenchido pela felicidade e pelo amor. Há, nas profundezas de cada pessoa, bem
lá no âmago do ser, uma configuração única de corais e cores, abismos inóspitos
e planuras arenosas, grandes paredões rochosos e pequeninas algas
semitransparentes, e incontáveis formas de vida. Quanto mais profundo o ser,
mais vida abriga, mais imensidão o habita.
Existem muitas coisas que nos aprofundam. A arte, em
geral, nos aprofunda. É um aprofundar-se não só no mundo, mas também em si
mesmo. Quando lemos um bom livro ou poema, alargamos nossa visão de mundo e
nossa sensibilidade, mas também expandimos nosso âmago, adentramos mais em nós
mesmos. Quando ouvimos uma boa música, deixamo-nos tocar pelas peculiares
combinações de sons, silêncios, e texturas: ritmo, melodia, harmonia, timbre,
dão forma e força a um idioma que não se compreende, mas se sente e se entende
cada um à sua maneira. Quando vislumbramos uma pintura, ou um desenho, ou uma
escultura, ou um bom filme, cada cor, traço, forma, cena, dá corpo à imaginação
do artista e aguça a nossa: nos ajuda a imaginar-nos e projetar-nos para além
de nós mesmos, mas nem por isso fora de nós – o mundo lá fora é somente uma
extensão de nós. E quando começamos a perceber que a arte é, antes que obra do
homem, obra de Deus, o Grande Criador, estamos preparados para notar a sinfonia
dos bichos, o balé das águas e das árvores, a batucada dos pingos da chuva, as
esculturas das nuvens e as mais belas telas de cada arrebol. Tornamo-nos tão
profundos e imensos quanto à própria obra de Deus, da qual fazemos parte.
Mas não é isto o que eles querem. Eles querem que
sejamos rasos. Para tanto, nos jogam anzóis, anzóis com iscas quase
irresistíveis e das mais variadas. E vamos lá, em cardumes, enfeitiçados pelo
verniz da armadilha, até acabarmos fisgados. Por vezes, nos malham em redes
transparentes, nos arrastões cotidianos. Noutras, somos atingidos literalmente
por arpões, que violentamente nos abatem e nos deixam à sua mercê. Vamos nos
tornando cada vez mais rasos, até que ficamos sem ar, sem vida, emergidos numa
superfície superficial: um rio de peixes mortos, todos iguais, nadando todos na
direção que o rio quer.
É difícil resistir à isca. É difícil não seguir o
cardume. Porém, quanto mais profundo se está, mais difícil sermos pescados.
Tanto a arte, quanto o amor, são maneiras de nos aprofundarmos em nós mesmos e
no mundo a ponto de estarmos seguros, longe do alcance dos anzóis.
Todos nós temos liberdade de ir a qualquer lugar, em
qualquer direção, seja rumo às nossas profundidades ou para dar uma espiadela
na superfície. O importante é que esta liberdade deve ser vigiada por nós, e
não induzida pelo verniz das iscas que nos oferecem. Não te esqueças: eles
querem que sejamos rasos.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 36-37)

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