sábado, 25 de fevereiro de 2023

O tempo é o pior ladrão - Crônicas afônicas (2014)

O TEMPO É O PIOR LADRÃO

Existe um lugar no universo onde vive tudo o que deixaste de viver. Lá está, aprisionado, tudo o que o tempo te roubou. Um passeio que não passeaste por conta de uma manhã enclausurada de estudos na primavera, com a paz de canto de pássaros e de brisa fresca e morna com aroma de flores e sol ameno a te esperar; um mergulho que não mergulhaste num açude refrescante à revelia de uma tarde mormacenta a poucos quilômetros da tua selva de pedra; uma palavra de carinho que não falaste, enredado ao teu cotidiano sufocante; um amor que não encontraste, naquela quarta-feira de serão no trabalho até às onze da noite em lugar de um happy hour à convite dos amigos; até uma árvore que não plantaste e sua sombra, seus pássaros e ar puro... Tudo está lá, na casa do tempo, roubado de ti.

O tempo é o pior ladrão. Oferece-te pequenas vantagens em troca da tua própria vida, da vida em plenitude. Rouba-te o bolinho de chuva, o aroma do vinho, o céu estrelado, os matizes do arrebol, o degustar dos condimentos, segundos de reflexão, minutos de silêncio, horas de sono, dias de alegria, semanas de férias, meses de viagem, anos de vida a dois, amores, filhos, netos, parentes, amigos, animais de estimação...

Sob a guarda do tempo jazem sonhos não realizados, poemas não escritos, rostos jamais vistos, palavras jamais ouvidas ou faladas, sorrisos não sorridos, beijos não beijados, abraços inócuos, ideias não pensadas...

Mas a vida e o mundo requerem trabalho, e o trabalho dignifica o homem. O trabalho, não o dinheiro. A vida e o mundo precisam de alimento, de cuidados, de agasalho, de abrigo, de arte, da luz do conhecimento. E o agradecimento da vida e do mundo para com o teu trabalho te dignificam. O dinheiro é apenas a materialização deste agradecimento, para que tu materializes teu agradecimento aos teus prestadores de serviço, e vice-versa: uma troca, simplesmente. O problema é a inversão de valores; colocar o dinheiro na frente do trabalho deturpa teu serviço, torna-o maculado. E esta é a principal armadilha do tempo: o “tempo-é-dinheiro”. Tempo não é dinheiro, tempo é vida. Vida tem trabalho, sim, mas também tem outras coisas.

Não apenas ‘gasta’ teu tempo, ‘passa’ ele também. Tem muita diferença entre gastar e passar o tempo. Gastando o tempo com ganância e ambição desmedida, pensando que cada minuto que passa é um minuto perdido, tu não o recuperas mais; o tempo te rouba os momentos mais belos da vida. Passando o tempo num passeio de mãos dadas à beira da praia, ou brincando de criança com teu filho, tu vives em plenitude.

O tempo é o pior ladrão, mas tu podes guardar a sete chaves, no teu coração, a beleza dos momentos preciosos.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 42-43)




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Briga de torcidas - Crônicas afônicas (2014)

BRIGA DE TORCIDAS

Luiza e o André se conheceram há pouco tempo, paixão dessas que não se resiste nem se reflete: se mergulha. Atração fatal, lance de energia, química do amor. Namoro novo que se reconhece de longe: não se desgrudam nunca, beijos e carinhos em público, são só sorrisos. Parecem dois adolescentes, apesar dos vinte e tantos. O amor nos rejuvenesce...

O novo casal realmente tem muita coisa em comum. A Luiza é estudante de Arquitetura, o André faz faculdade de Engenharia Civil. A Luiza é fã da culinária italiana, o André adora pizza e macarronada. A Luiza curte caminhar pelos parques da cidade, o André preza muito o contato com a natureza. A Luiza ama as crônicas da Martha Medeiros, o André acha o Veríssimo um cara muito inteligente. A Luiza é fã da Legião Urbana, o André toca Pais e filhos e Eduardo e Mônica no violão. E as semelhanças entre os dois enamorados por aí vão, interligando cada vez mais o casal a cada descoberta de gosto em comum.

Mas nem só as semelhanças são benéficas ao amor. A Luiza gosta de vinho suave, o André de vinho seco. Quando foram jantar juntos pela primeira vez, o André decidiu pedir vinho suave para agradar a moça. O amor também é feito de trocas, de renúncia... A Luiza também já cedeu: quando o André queria ir ao show do Pouca Vogal, ela o acompanhou e deixou de ir à festa de aniversário da melhor amiga. Todos têm que ceder. Ao menos um pouquinho.

Só que neste fim de semana teve clássico Grenal, e a Luiza é gremista e o André colorado. Ambos fanáticos. Daí não teve jeito, nenhum dos dois deu o braço a torcer. Permaneceram ela gremista, ele colorado. Foi o primeiro Grenal do casal, e foi tudo bem. Cada um vibrou com seu time, torceu, secou, gritou gol, cada um na sua, e o jogo acabou um a um. Depois do jogo, abraços, discussão construtiva sobre o jogo, jantarzinho íntimo e... Um a um no amor.

Se não houvesse respeito entre o casal, talvez ficassem no zero a zero. Eles souberam aprender a respeitar um ao outro, um ao time do outro. Nenhum deles diminuiu sua paixão pelo seu time do coração, e nem comprometeu a sua paixão um pelo outro. Noutros tempos, a Luiza xingaria os colorados. O André então, nem se fala. Já foi a clássicos e arranjou briga. Mas hoje em dia entendem que sua paixão não anula a do outro. Cada um de nós tem suas preferências, e preferir um clube de futebol a outro não nos torna melhores ou piores que ninguém. Parece um tanto óbvio, mas tem muita gente que confunde amor ao seu time com ódio ao rival.

Obviamente há a flauta, aquela brincadeira, a provocação ao torcedor adversário, muitas vezes sadia. A rivalidade ajuda os clubes a se esforçarem sempre ao máximo para superar o rival. Mas quando isso descamba para a agressividade, para a violência, tudo muda de figura.

Nos estádios, nos bares e nas ruas, além de famílias, além de pessoas de bem, sempre há aquelas pessoas prontas para a briga, com a intenção da bagunça, com o espírito da baderna. Mais parecem romanos ao Coliseu. A verdadeira razão de estarem ali é a violência, é a anarquia, e não a paixão futebolística. O futebol é apenas o bode-expiatório.

O André e a Luiza já combinaram: de vez em quando, um vai acompanhar o outro nos jogos do Grêmio, e do Inter. Não vão chegar ao ponto de vestir a camisa do rival, vão à paisana. Mas que mal há nisso? Em acompanhar o grande amor no jogo do seu time?

Briga de torcidas não combina com o amor. Nem com o amor homem/mulher nem com o amor ao próximo. Tu escolhes teus amigos pela cor da camisa? Tu eleges teus relacionamentos de acordo com o clube do coração? Só compras roupas da cor do teu time? Não aceitarias um bom negócio porque o carro é da cor do rival? Convenhamos. Não sejamos tão pequenos.

No jogo da vida, ou no do amor, não há espaço para briga de torcidas. Agita tua bandeira, veste tua camisa, vibra, torce, mas abraça o teu amigo torcedor rival, beija teu amor adversário. Ou então, vais ficar no zero a zero.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 38-40)




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Eles querem que sejamos rasos - Crônicas afônicas (2014)

ELES QUEREM QUE SEJAMOS RASOS

Cada ser é um universo único. Habitam, dentro de cada um de nós, galáxias desconhecidas de sentimentos, planetas inexplorados de maneiras de ver o mundo, constelações de ideias, e um vácuo infinito a ser preenchido pela felicidade e pelo amor. Há, nas profundezas de cada pessoa, bem lá no âmago do ser, uma configuração única de corais e cores, abismos inóspitos e planuras arenosas, grandes paredões rochosos e pequeninas algas semitransparentes, e incontáveis formas de vida. Quanto mais profundo o ser, mais vida abriga, mais imensidão o habita.

Existem muitas coisas que nos aprofundam. A arte, em geral, nos aprofunda. É um aprofundar-se não só no mundo, mas também em si mesmo. Quando lemos um bom livro ou poema, alargamos nossa visão de mundo e nossa sensibilidade, mas também expandimos nosso âmago, adentramos mais em nós mesmos. Quando ouvimos uma boa música, deixamo-nos tocar pelas peculiares combinações de sons, silêncios, e texturas: ritmo, melodia, harmonia, timbre, dão forma e força a um idioma que não se compreende, mas se sente e se entende cada um à sua maneira. Quando vislumbramos uma pintura, ou um desenho, ou uma escultura, ou um bom filme, cada cor, traço, forma, cena, dá corpo à imaginação do artista e aguça a nossa: nos ajuda a imaginar-nos e projetar-nos para além de nós mesmos, mas nem por isso fora de nós – o mundo lá fora é somente uma extensão de nós. E quando começamos a perceber que a arte é, antes que obra do homem, obra de Deus, o Grande Criador, estamos preparados para notar a sinfonia dos bichos, o balé das águas e das árvores, a batucada dos pingos da chuva, as esculturas das nuvens e as mais belas telas de cada arrebol. Tornamo-nos tão profundos e imensos quanto à própria obra de Deus, da qual fazemos parte.

Mas não é isto o que eles querem. Eles querem que sejamos rasos. Para tanto, nos jogam anzóis, anzóis com iscas quase irresistíveis e das mais variadas. E vamos lá, em cardumes, enfeitiçados pelo verniz da armadilha, até acabarmos fisgados. Por vezes, nos malham em redes transparentes, nos arrastões cotidianos. Noutras, somos atingidos literalmente por arpões, que violentamente nos abatem e nos deixam à sua mercê. Vamos nos tornando cada vez mais rasos, até que ficamos sem ar, sem vida, emergidos numa superfície superficial: um rio de peixes mortos, todos iguais, nadando todos na direção que o rio quer.

É difícil resistir à isca. É difícil não seguir o cardume. Porém, quanto mais profundo se está, mais difícil sermos pescados. Tanto a arte, quanto o amor, são maneiras de nos aprofundarmos em nós mesmos e no mundo a ponto de estarmos seguros, longe do alcance dos anzóis.

Todos nós temos liberdade de ir a qualquer lugar, em qualquer direção, seja rumo às nossas profundidades ou para dar uma espiadela na superfície. O importante é que esta liberdade deve ser vigiada por nós, e não induzida pelo verniz das iscas que nos oferecem. Não te esqueças: eles querem que sejamos rasos.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 36-37)




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

O BBB - Crônicas afônicas (2014)

O BBB 

 Em tempos de reality shows inócuos, detenhamos nossa atenção à vida real de um personagem que não faz o tipo e nem é foco da audiência de um BBB.

O Bruno Brasil nasceu pobre, na periferia de Porto Alegre, no cinturão da cidade. À sua volta, em vez de câmeras, modelos plastificadas e mocinhos bombados, a realidade nua e crua. Seu pai faleceu quando o Bruno ainda era uma criança: após mais uma noite inteira de cachaça, o Seu Olavo afogou-se na sarjeta, em frente à casa do Bruno, que assistiu pela manhã, atônito, a algazarra da vizinhança, ambulância e tudo mais. Sua mãe, a Dona Lurdes, sempre fez das tripas coração pela vida do falecido marido e dos nove filhos, dentre eles o mais novo, o Bruno. No entanto, as quatro meninas engravidaram pela primeira vez já na pré-adolescência; três delas apanham do atual marido, e o último marido da outra morreu esfaqueado por traficantes, por conta de uma dívida. E os demais quatro meninos, exceto o Bruno, caíram todos no mundo do crime e das drogas: dois morreram em tiroteios com a polícia e dois morreram espancados por viciados em busca de mais pedra, quando se encontravam, também, no último nível de dependência do crack.

Mas o Bruno era diferente. Era daquelas almas iluminadas que nascem num mundo escuro para emprestar sua luz aos que dela tanto necessitam. E o Bruno fez diferente, fez a diferença...

O Bruno teve a mesma educação e tratamento em casa, estudou na mesma escola pública e teve as mesmas condições financeiras miseráveis e os mesmos problemas familiares que seus irmãos, mas nutria dentro de si uma vontade incontida de alargar seus horizontes. Aos oito anos começou a aprender teoria musical e flauta doce em um projeto em turno inverso em sua escola, o que não o impedia de ajudar sua família vendendo balas nas sinaleiras. Na escola, também fez cursos de violão, poesia, participava do projeto de canto coral e de toda e qualquer oficina de instrumento musical.

O Bruno nunca desdenhou sua origem humilde e a cor da sua pele, mas sempre pensou com sua cabeça e elaborou seu próprio gosto artístico-musical. Aos poucos, foi se interessando pela leitura: buscou livros de poesia, de história, grandes clássicos da literatura, de filosofia, e de política. Aprendeu a ter uma visão crítica, sensível e realista sobre o seu mundo e o mundo lá fora. Nunca desprezou o hip-hop, o rap, o samba, o grafitti, mas percebeu que vários dos projetos desenvolvidos para preservar a cultura de periferia mascaravam a segunda intenção do voto a cabresto. Por que não estudar a música e a arte em sua totalidade? Por que ficar preso às amarras periféricas, se o mundo acena lá fora com um céu aberto de possibilidades artísticas e de vida?

Cursou faculdade de música e tornou-se professor, sempre paralelamente trabalhando em outros empregos e ajudando sua família. Nunca se importou em trabalhar: acreditava que trabalhar era criar, assim como Deus vê o trabalho. Foi engraxate, gari, garçom, faxineiro, vendedor de roupas e caixa de supermercado. Atendia às pessoas como se fossem seus amigos, seus filhos.

Mas foi num curso de extensão do Conservatório que encontrou sua paixão. Aliás, suas duas paixões: o clarinete e a professora de clarinete, uma bela inglesa. Casaram-se e o Bruno foi viver na Inglaterra. Aprendeu respiração circular com um aborígene australiano e tornou-se o mais notável e incrível clarinetista da mais conceituada orquestra do Reino Unido.

Este ano, sua irmã mais velha o inscreveu, secretamente, para o Big Brother, uma vaga sorteada, com a intenção de premiar o seu irmão-herói. Para a surpresa de todos, o Big Bruno Brasil, como é conhecido no Reino Unido, foi sorteado. E para a surpresa de todos e da família Brasil, o Bruno recusou-se a participar de um show ilusório, exatamente como ele não vê a vida.

Histórias semelhantes à do Bruno, o nosso BBB, estão por aí afora, a ornamentar o mundo. É só olhar para o lado. Muitas vezes, a janela da tua casa mostra histórias mais bonitas e verdadeiras que a telinha da TV.

Se esta história é verídica? Ouvi dizer que para uma história ser real, basta contá-la...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 32-34)




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Quando nos fazemos vidro - Crônicas afônicas (2014)

QUANDO NOS FAZEMOS VIDRO

Você me deixou sem visão, quebrou meu olhar. Estranha sensação. Logo eu que me julgava tão forte, agora estou aqui, em cacos. Fiz-me tão frágil quanto uma vidraça. Deixamo-nos quebrar quando nos fazemos vidro.

Agora, cada passo é calculado. É como caminhar às escuras num lugar desconhecido: passo a passo, pisando em cacos, os demais sentidos aguçados. Parece que fiquei mais forte... Estranho: se as aparências me enganaram, nada mais se parece.

Nenhum gesto eu aceno em vão. Não cometo exageros. Tudo medido. Eu sempre tenho os pés no chão, passo a passo, pisando em cacos. Quando se perde a visão, se presta mais atenção aos pensamentos, se diz e se faz melhor dito e melhor feito.

O brilho mentiroso das palavras já não me convence mais: suas roupas são outras; escuto as entrelinhas... Quando se perde a visão, se ouve cada trejeito, cada expressão, cada silêncio, cada respiração.

O cheiro do vento me traz notícias, é o meu jornal. Denuncia, a quilômetros, quem se aproxima e sua intenção. Quando se perde a visão, se percebe o idioma do olfato, se fareja o perigo, a oportunidade, a presa, o predador, a dança das árvores e do riacho.

Decoro cada rosto pelo sabor de suas atitudes. Pessoas doces, educadas, pessoas amargas, amarguradas. Quando se perde a visão, o paladar descobre temperos improváveis.

Tateio lembranças, acaricio amores, abraço ausências, golpeio remorsos. Sinto escorrer por entre os dedos o tempo que perdi e o que ainda me resta. Quando se perde a visão, novas texturas vêm fazer parte do contexto.

Cada perda dá algo. Cada derrota conquista algo. Cada vez que se cai é uma oportunidade para se levantar. Cada vez que nos deixamos quebrar é uma oportunidade para nos refazermos, nos reinventarmos. Quando se quebra o olhar, se amplia a visão de mundo. Fica-se mais forte quando nos fazemos vidro.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 30-31)




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O amor é a lua e o sol, a poesia e a canção - Crônicas afônicas (2014)

O AMOR É A LUA E O SOL, A POESIA E A CANÇÃO

Ele apertou o passo, decidido, sem olhar pra trás; muita coisa ele deixava às costas. Coisas ruins, coisas boas, mas que não mais o deixavam seguir adiante. Caminhando, caminhando, até além do horizonte, pode ver o infinito de si mesmo, em solidão. Muita coisa se vê apenas com o devido afastamento, principalmente quando se tratam de coisas pessoais, íntimas, do âmago. A solidão é boa companheira, quando se precisa estar só. A solidão é boa conselheira, quando se precisa ouvir a si mesmo.

Portanto, não se encontrava sozinho, mesmo estando só: pensamentos lhe faziam companhia. Sua vida mais recente se projetava, se estendia a desdobramentos não ocorridos, mas que poderiam mudar tudo: futuros possíveis de um passado solidificado. O passado é pedra entalhada que não se pode reesculpir. É o mármore do tempo. Somente o pensamento volátil é quem o pode remoldar, a esmo; logo evapora.

No alto da montanha, num papel ele escreveu: O amor é a lua e o sol, a poesia e a canção.

É uma busca eterna, os caminhos de si; cada passo deixa marcas na estrada... Essas pegadas, nem mesmo o tempo pode apagar. Mas, como se costuma dizer, o caminho se aprende caminhando. É justamente o mistério de cada curva, de cada bifurcação, de cada horizonte distante, que torna interessante, excitante a caminhada.

Na vida não há caminhos prontos ou uma só estrada certa; o caminho é descobrir. Descobrir o caminho é uma viagem de autoconhecimento: descobrindo o seu caminho, se descobre a si.

São caminhos tortuosos os do amor. A visão turva a cada curva. O coração é um motor e um motorista cego que, por não ver a estrada, não entende o momento de acelerar, frear, reduzir... Acidentes acontecem. Mas sem o amor, o combustível desse carro, não se chega a lugar algum.

O amor é algo que nos completa e nos aflige, indissociavelmente; lá no alto da montanha, num papel ele anotou: O amor é a lua e o sol, a poesia e a canção.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 28-29)




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Crônica afônica - Crônicas afônicas (2014)

 CRÔNICA AFÔNICA

 

Desta vez, concebi minha crônica sem final; uma crônica afônica, cansada de falar, já sem voz; calada perante os olhos desviantes; atônita frente ao espelho.

Minha crônica consente sua inexistência, assume o anonimato, faz-se desistir. Suas letras brancas sobre o fundo branco, página virada antes mesmo de ser lida.

Acometida por doença crônica, minha crônica definha sem ter nascido.

Àqueles que não a leram, resume-se a nada. Àqueles que a leram, não passa de ilusão.

Minha crônica-miragem morre de sede no oásis. Minha crônica-sonho desperta em amnésia.

Seu discurso mudo não mudou o mundo. Suas linhas tortas são ilegíveis. Seu verso não conversa. Seu verbo não tem verba. Seu corpo é inócuo, continente sem conteúdo. Sua música: um minuto de silêncio.

Ela não diz nada porque já disse tudo.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 26)




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

À sombra da vaidade - Crônicas afônicas (2014)

À SOMBRA DA VAIDADE

Nada do que faço faz sentido oposto a mim, é crime ou contravenção eu me contrariar. Solidariedade? Sou solidário a mim mesmo. Se eu preciso de mim, lá estou, prontamente, para estender-me a mão.

Mas... É claro que meus planos também incluem outras pessoas ao meu redor: eu sou o centro! Hahaha! Tudo gira em torno de mim! Meus desejos, minhas vontades, minhas fantasias... E ninguém me tira satisfação, não! Não paro enquanto não estiver satisfeito.

A minha imagem no espelho, pálida, olhos vermelhos, rosto molhado, são armadilhas para me enganar... Eu sei que sou feliz de fato, sou egoísta e assim me basto, não há motivos nem ninguém para chorar. Pensa bem! Eu me preocupo apenas comigo mesmo, me responsabilizo apenas pelos meus próprios atos e estes, interferem apenas na minha vida. Não tenho fardos! Sou leve, livre, solto.

Se às vezes me apanho em solidão é por vaidade, pois companhias eu tenho a mim mesmo. Converso comigo e nunca há discussão, briga, desentendimento. Concordo comigo em gênero, número e grau. Nunca vi tanta sintonia! Também pudera, eu conheço a mim como ninguém, e ninguém conhece tão bem a mim quanto eu.

Soberba, isto sim eu não suporto, é virtude que é só minha! Não admito que ninguém além de mim intervenha em meus assuntos. Ninguém além de mim me corrige, me critica, ou até mesmo me elogia ou me conforta.

Quanto ao amor? É só ilusão! Desiste. Ninguém te ama, te amou ou vai te amar além de tu mesmo. Eu me amo! Não posso viver sem mim. Eu me amo, eu me basto, eu me entendo. E acima de tudo, eu me governo, sou meu Estado, minha lei, minha ordem, meu amor, minha religião, minha vida. Minha vida, não divido com ninguém, não! Não adianta vir com essa voz gentil, esse sorriso sincero, esse olhar cristalino, essas palavras luzidias, essas mãos, essa boca... Na minha vida, não entra ninguém. Entendeu? Ninguém! Eu não preciso de ninguém... Eu preciso apenas de mim... Eu me amo, eu me basto, eu me entendo...

Além do mais, eu vivo na santa paz do meu silêncio, da minha solidão, de mim mesmo e ninguém mais.

Nada me incomoda, nada me estressa, nada me conflita, nada me tira do meu centro, nada me desassossega, nada me desconforta... Estou à sombra da minha vaidade. 

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 24-25)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...