O TEMPO É O PIOR LADRÃO
Existe um lugar no universo onde vive tudo
o que deixaste de viver. Lá está, aprisionado, tudo o que o tempo te roubou. Um
passeio que não passeaste por conta de uma manhã enclausurada de estudos na
primavera, com a paz de canto de pássaros e de brisa fresca e morna com aroma
de flores e sol ameno a te esperar; um mergulho que não mergulhaste num açude
refrescante à revelia de uma tarde mormacenta a poucos quilômetros da tua selva
de pedra; uma palavra de carinho que não falaste, enredado ao teu cotidiano
sufocante; um amor que não encontraste, naquela quarta-feira de serão no
trabalho até às onze da noite em lugar de um happy
hour à convite dos amigos;
até uma árvore que não plantaste e sua sombra, seus pássaros e ar puro... Tudo
está lá, na casa do tempo, roubado de ti.
O tempo é o
pior ladrão. Oferece-te pequenas vantagens em troca da tua própria vida, da
vida em plenitude. Rouba-te o bolinho de chuva, o aroma do vinho, o céu
estrelado, os matizes do arrebol, o degustar dos condimentos, segundos de
reflexão, minutos de silêncio, horas de sono, dias de alegria, semanas de
férias, meses de viagem, anos de vida a dois, amores, filhos, netos, parentes,
amigos, animais de estimação...
Sob a guarda
do tempo jazem sonhos não realizados, poemas não escritos, rostos jamais
vistos, palavras jamais ouvidas ou faladas, sorrisos não sorridos, beijos não
beijados, abraços inócuos, ideias não pensadas...
Mas a vida e o
mundo requerem trabalho, e o trabalho dignifica o homem. O trabalho, não o
dinheiro. A vida e o mundo precisam de alimento, de cuidados, de agasalho, de
abrigo, de arte, da luz do conhecimento. E o agradecimento da vida e do mundo
para com o teu trabalho te dignificam. O dinheiro é apenas a materialização
deste agradecimento, para que tu materializes teu agradecimento aos teus
prestadores de serviço, e vice-versa: uma troca, simplesmente. O problema é a
inversão de valores; colocar o dinheiro na frente do trabalho deturpa teu
serviço, torna-o maculado. E esta é a principal armadilha do tempo: o
“tempo-é-dinheiro”. Tempo não é dinheiro, tempo é vida. Vida tem trabalho, sim,
mas também tem outras coisas.
Não apenas
‘gasta’ teu tempo, ‘passa’ ele também. Tem muita diferença entre gastar e
passar o tempo. Gastando o tempo com ganância e ambição desmedida, pensando que
cada minuto que passa é um minuto perdido, tu não o recuperas mais; o tempo te
rouba os momentos mais belos da vida. Passando o tempo num passeio de mãos
dadas à beira da praia, ou brincando de criança com teu filho, tu vives em
plenitude.
O tempo é o
pior ladrão, mas tu podes guardar a sete chaves, no teu coração, a beleza dos
momentos preciosos.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 42-43)







