ROMANCE EM ESTIAGEM
Este blog foi criado para reunir, disponibilizar e divulgar a obra de Danilo Kuhn, músico, compositor, poeta e escritor. Poemas, letras de música, músicas, cifras, crônicas, contos, sua produção artística tem este espaço como repositório. Navegue, leia, escute, interaja, baixe, compartilhe à vontade. A arte não existe por si mesma, ela necessita abrigo. (O autor)
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Romance em estiagem - O livro dos espelhos (2011)
A vida, cá na campanha,
andava meio sisuda;
coração feito cacimba
esperando água da chuva.
Um dia encilhei o pingo
que restara desta seca
e me fui bebendo estrada,
entre nuvens de poeira.
Perdido, entre a paisagem,
um par de olhos castanhos...
Chuvarada na campanha!
– Foi-se embora a estiagem –.
Na porteira da fazenda
o meu peito descobriu
que o olhar daquela prenda
era de inundar estio.
Coração foi na corrente
das corredeiras do rio...
O amor se fez enchente
neste peito tão vazio.
No entanto, tamanho encanto
num instante se desfez
e o rio tornou-se pranto...
– De tristeza, me afoguei –.
A prenda de olhos castanhos
não me deu seu coração
e eu, aos poucos, fui secando...
– Vi meus olhos rasos d´água –.
Me fui voltando “pras casa”,
a galope, no meu pingo
que o sol forte da campanha
já levou em seu estio...
Inda lembro da fazenda,
das corredeiras do rio
e do olhar daquela prenda,
que era de inundar estio.
Hoje vago nas paragens,
remoendo a solidão
de um romance em estiagem
que secou meu coração.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, p. 75-76)
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Romance do amanhecer - O livro dos espelhos (2011)
ROMANCE DO AMANHECER
O sol desnudava a pampa
em carícias luzidias,
cavalgando campo à fora,
transformando noite em dia
e, enquanto amanhecia,
despertava, a cada afago,
nas coxilhas já desnudas
todos amores do pago.
Terra e céu, pampa e sol
um só ser agora são;
entre rubores de aurora,
brisa em suave canção.
Silente, o tempo esvaía,
sorrateiro, sem alarde,
lembrando que a noite fria
se impõe ao cair da tarde.
Sangrado, o amor poente,
quando o dia foi embora,
adormeceu no horizonte,
esperando a nova aurora.
E amanhã pampa e sol
hão de se amar novamente,
trazendo lume ao dia,
arrebol do amor nascente.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 73)
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Quando o mate sorve a gente - O livro dos espelhos (2011)
QUANDO O MATE SORVE A GENTE
Quando o mate sorve a gente,
invernia e solidão
dão lugar à água quente,
que aquece o coração.
Quando o mate sorve a gente,
afogam-se todas mágoas;
da mão brota uma vertente
de onde o pranto deságua.
Da taipa, vejo águas calmas
e um verde por todo o chão...
Quem mateia lava a alma
no açude do chimarrão!
Quando o mate sorve a gente,
a saudade é erva buena:
no carijo, insistente,
o braseiro cura as penas.
Quando o mate sorve a gente,
no amargor das madrugadas,
o doce gosto se sente
dos beijos da prenda amada.
Da taipa, vejo águas calmas
e um verde por todo o chão...
Quem mateia lava a alma
no açude do chimarrão!
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 71)
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
O pescador e o amor - O livro dos espelhos (2011)
O PESCADOR E O AMOR
O luar, sobre a lagoa,
abre uma trilha prateada.
A onda que beija a proa
suspira, apaixonada.
A canção que o vento sopra
faz a alma içar velas.
E... o coração galopa
navegando sob estrelas.
O céu aponta caminhos,
é o mapa do pescador.
Há cardumes de carinho
nas águas fundas do amor.
A aurora, ilusionista,
traz, em si, uma aquarela.
No horizonte, Deus artista
pinta sua mais nova tela.
A lagoa e o arrebol,
num quadro emoldurado,
refletem raios de sol,
lumiando o barco ancorado.
O céu aponta caminhos,
é o mapa do pescador.
Há cardumes de carinho
nas águas fundas do amor.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 69)
terça-feira, 18 de agosto de 2020
As rédeas do vento - O livro dos espelhos (2011)
AS RÉDEAS DO VENTO
Chamamé tomou as rédeas do vento
pra cavalgar no céu azul da pampa
e, céu afora, nuvem branca à cabresto,
matou a sede no espelho das sangas.
Dia a dia, em seu celeste reponte,
rebanhos de raios-de-luz-de-auroras
e bandos de estrelas que, do horizonte,
refletem o infinito nas esporas.
E chamamé recorreu a querência
repontando a luzidia tropilha
e o pago inteiro se encheu de esperança
por chamamé ecoar nas coxilhas.
Chamamé tomou as rédeas do vento
pra cavalgar no céu azul da pampa
e fez dançar as folhas na mata
aos primeiros raios de sol da manhã.
Dos vaga-lumes, do clarão lua
nos olhos dos bichos, açudes e rios,
o lume da tropa que, em noite escura,
ao reponte de chamamé luziu.
E chamamé recorreu a querência
repontando a luzidia tropilha
e o pago inteiro se encheu de esperança
por chamamé ecoar nas coxilhas.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 67)
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Amanhecer de milonga - O livro dos espelhos (2011)
AMANHECER DE MILONGA
A milonga, em sua aurora,
abre as cortinas da noite;
vislumbra a pampa, lá fora,
da janela do horizonte.
A milonga amanhece
tão sonora e luzidia...
Como se fosse uma prece,
abençoa as sesmarias.
Milonga do amanhecer,
traz, pra alma, claridade.
O sol que nasce na pampa
chega na hora do mate.
A milonga, já desperta,
num instante se faz dia;
é quero-quero em alerta
no topo de uma coxilha.
A milonga, em plenitude,
é o dia que se prolonga.
Há, no espelho do açude,
distraída, uma milonga...
Milonga do amanhecer,
traz, pra alma, claridade.
O sol que nasce na pampa
chega na hora do mate.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 65)
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
A voz da América do Sul - O livro dos espelhos (2011)
A VOZ DA AMÉRICA DO SUL
Calou-se a voz da América do Sul,
levou com ela a dor do nosso adeus;
nas asas de um condor, no céu azul,
sua alma, clara, foi morar com Deus.
Nos ranchos, toscos, se acenderam velas
e de silêncio revestiu-se a pampa.
O aço perde o fio, se destempera,
mas a palavra é espada de quem canta.
A América ouvia a sua voz
como se fosse o som de nossas almas.
Um rio não morre ao encontrar a foz,
são só suas águas que se alargam, calmas.
Eu só peço a Deus, em nome dos pobres;
nós somos filhos do mesmo abandono.
A terra abriga humildes casebres
e nos casebres, se abrigam os sonhos.
Em cada verga, em cada semente,
na esperança, cega, do semeador,
em cada sanga , dormindo silente...
Tu viverás, nos aguapés em flor.
A América ouvia a sua voz,
como se fosse o som de nossas almas.
Um rio não morre ao encontrar a foz,
são só suas águas que se alargam, calmas.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 63)
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Poema do tempo - O livro dos espelhos (2011)
POEMA DO TEMPO
O tempo não passa lento ou depressa,
somos nós em suas mãos de ventríloquo;
o tempo não passa, ele está.
Há areia movediça na ampulheta do tempo;
o tempo tem sede da gente.
Faz tempo que o tempo teima em me roubá-lo a si.
O tempo é o que foi, o que é, o que será, e o que teria sido
ou não.
O tempo é o pior ladrão:
tempo é o que escorre por entre os dedos e nos leva junto.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 59)
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Pensamentos - O livro dos espelhos (2011)
PENSAMENTOS
Pensamentos são formas
semi-transparentes-multicores
que se aproximam e se afastam,
cada um a seu tempo,
de nossa percepção,
olhos fechados ou não.
Minhas ideias são tão densas
que se comprimem,
se empurram pelo meu foco,
e tão rarefeitas
que me vêm não sei de onde,
como, e por que.
Odeio quando meus pensamentos
cantam mais alto que as músicas do meu player...
Temos um inconsciente vivo dentro de nós.
Escuta?
O pensamento
é uma extensão de nós;
é o eu projetando-se.
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Nas entrelinhas da pauta - O livro dos espelhos (2011)
NAS ENTRELINHAS DA PAUTA
Nas entrelinhas da pauta,
acidentes ocorrentes
não atrapalham o trânsito...
Deixam-no mais fluente.
Tons vizinhos e de empréstimo
convivem em harmonia,
embora o descompasso
em que se vive hoje em dia.
Quem faz da alma instrumento
e sente o mundo em melodia,
não joga notas ao vento...
Revela-se, entre linhas.
Nas entrelinhas da pauta,
a clave de sol nascente
desperta acordes dormidos
num campo harmônico distante.
Em contraponto à realidade
quase não se sente falta
de destino certo e repouso
nas entrelinhas da pauta.
Quem faz da alma instrumento
e sente o mundo em melodia,
não joga notas ao vento...
Revela-se, entre linhas.
(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 55)
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