O AMOR DURANTE A ESPERA
O amor, durante
a espera, debruça-se na janela com o olhar apaixonado a redesenhar a paisagem
para tornar-se parte dela. Imagina-se de mãos dadas a passear pelas veredas
verdejantes em busca de morangos silvestres, num abraço a contemplar o
amanhecer – sim, o amor amanhece –, num beijo a degustar açucarado néctar –
sim, o amor floresce –, em carícias a sonhar sob o céu estrelado – sim, o amor
adormece, e faz planos.
O amor,
durante a espera, suspira na noite vazia de modo a preenchê-la: o amor não
suporta a solidão, nem mesmo a solidão a dois. O amor é um poeta a desnudar
estrelas distraídas para vestir-se de poesia.
O amor,
durante a espera, contempla o sol nascente: na luz de cada amanhecer, o amor faz-se presente. O amanhecer de um amor é o mais lindo dos arrebóis.
O amor,
durante a espera, abraça a própria sombra: o amor é, ao mesmo tempo, a luz, o
corpo e a sombra. Sua luz o ilumina e projeta sua sombra, uma sombra de dois,
de dois corpos. Não há dois corpos sem luz e sombra, nem sombra de dois corpos
sem luz, ou luz sem sombra de dois corpos.
O amor,
durante a espera, percebe a janela insistindo que o tempo não para, mas logo se
distrai em romantismo. Pessoas sem rosto caminhando lá fora... Por que, na
janela da minha vida, você não passa e acena?
O ruído da rua
invadindo o silêncio não é suficiente para abafar as batidas do meu coração...
O sol da manhã e o vento passeiam, mas se você não passa, não tem graça... Por
que, na janela da minha, você não passa e me chama?
O amor,
durante a espera, é o tempo passando só do lado de fora, é olhar ao redor e não
enxergar nada, é perguntar ao silêncio e esperar resposta, é prender a si mesmo
e jogar a chave fora.
Por que, na janela da minha vida, você não passa e acena? Por que, na janela da minha vida, você não passa e me chama?
(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 62-63)

Lindo, lírico! Abraço da Beatriz
ResponderExcluirMuito obrigado! Abraço metrificado!
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