PARA NOSSA ALEGRIA
Nos galhos secos desta crônica, para nossa
alegria, florescerão apenas coisas boas. Não florescerão nosso extrato da conta
corrente ‘no vermelho’, nem nosso salário achatado. Tampouco florescerão o
financiamento do carro, o rancho do mês, as contas de água e de luz, ou a
“fratura” do cartão de crédito. Não florescerão os problemas cotidianos, as
preocupações com a filha ou filho ‘aborrescente’, a pressão dos pais por estudo
ou trabalho, as dúvidas sobre sexo, ou as perguntas inoportunas dos avós. Não
florescerão, também, as dificuldades nos relacionamentos, a falta de tempo para
namorar, as discussões de relação, os desentendimentos com os parentes. Não
florescerão, ainda, o engarrafamento e a poluição, o atraso para o trabalho, o
chefe impertinente, as notícias de acidentes no trânsito, casos de pedofilia,
estupros, assaltos, assassinatos, reportagens sensacionalistas. Bem como não
florescerão dízimos, lavagem cerebral, vendas e mordaças, algemas e grades. E
não florescerão o aquecimento global, a crise financeira, a política e a
violência. Não florescerão ervas daninhas. Florescerão apenas flores.
Florescerão
amanheceres nas colinas verdes encobertas pelo véu da bruma leve e pores de sol
róseos e lilases refletidos no dorso branco das nuvens calmas aos quais não
damos atenção. Florescerão um teto bordado de infinitas estrelas faceiras e um
sopro de brisa fresca que nos acenam e não notamos. Florescerão a poesia da
vida que nossos olhos evitam ler, as palavras doces que nossos ouvidos
amargurados não sentem o sabor, o calor fraterno dos abraços dos quais fugimos
mesmo estando com frio, o perfume de um amor a desabrochar que não alcança
nosso olfato.
Enquanto a
vida floresce no nosso jardim, tendemos a descuidar das flores. Não as regamos.
Não as adubamos. Não percebemos suas cores, seu viço, seu lume, sua música, seu
aroma, seu frescor, seu florescer. Não somos bons jardineiros. Podamos as flores
e deixamos crescer as ervas daninhas.
Olhemos mais para nosso jardim interior. Nossa vida atribulada pouco nos permite, mas o simples tentar perceber nos enobrece. Se nos determos apenas com o ‘lá fora’, quem vai cuidar das flores?
(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 46-47)

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