quinta-feira, 23 de março de 2023

Desencanto - Crônicas afônicas (2014)

DESENCANTO

 

Era a Época de Ouro dos circos. Companhias circenses percorriam cidades, estados, países, encantando a homens, mulheres e crianças com sua magia e novidade. Havia atrações de toda espécie e de toda parte, números famosos e surpresas extraordinárias ao público, animais exóticos, trapezistas, malabares, corda-bamba, palhaços e cantores-palhaços.

Alfredo era cantor, um cantor-palhaço que como tantos da época usava o picadeiro como palco, visando ser conhecido pessoalmente pelo público e também galgando uma boa fonte de renda. Ele já se havia aventurado pelas rádios em São Paulo, mas o brilho do prestígio e da glória circense e o dinheiro e o sucesso o levaram a seguir o rumo dos circos pelo interior do Brasil.

Alfredo era muito talentoso. Deus lhe havia presenteado com o dom do canto para encantar multidões. Sua voz potente intimidava, ao passo que a suavidade de sua interpretação enchia ouvidos e corações de ternura. No entanto, assim como cada provação que Deus nos impõe é um teste para nossa alma, cada presente d’Ele também o é... Alfredo cegara ante o verniz da fama, e já não via nada ao seu redor que lhe importasse que não fosse o seu sucesso e o dinheiro...

Nos bastidores, longe da plateia, Alfredo tinha amigos, parceiros musicais que lhe ajudavam das mais variadas formas. Escreviam-lhe canções, oportunizavam-lhe o contato com outros artistas, emprestavam-lhe sua arte, e muitas vezes até mesmo lhe presenteavam canções para que ele tomasse para si a autoria das mesmas. Além disso, devotavam a ele amizade sincera e leal. Um deles, Camilo, filho de João – o maior parceiro de Alfredo –, era um jovem mais esforçado que talentoso mas, ainda assim, era uma criatura boa e um bom artista. Não tinha a voz de Alfredo, nem o verso de seu pai João, mas era um rapaz sensível, criativo e profundo em suas cançonetas.

Acontece que um dia, sem aviso prévio e explicação, Alfredo decidiu trocar de circo. Uma das canções de João, em parceria presenteada com Alfredo, fez um sucesso tremendo e levou o cantor a uma ganância extrema que, por conveniência econômica, inclinou João a negar a seu filho Camilo a oportunidade de mudar também para um circo maior e melhor. Alfredo e João, ainda que o último se sentisse um pouco arrependido, seguiram viagem e deixaram o jovem para trás, naquele circo já sem brilho que prendesse Alfredo.

O tempo passa, o mundo dá voltas, Alfredo e João retornam ao convívio de Camilo que, renitente, apesar das novas parcerias musicais entre os três, passa a ter sempre um pé atrás com seus parceiros. Por que haviam lhe deixado? Sua arte não era suficientemente bela ou funcional? Ou apenas não se enquadrava às expectativas dos seus parceiros quanto ao seu trato a colegas ou superiores?

Camilo era extremamente simples, avesso a tratar seus colegas e superiores com falsas e envernizadas palavras, sorrisos de plástico e atitudes demasiado servis. Mas era feliz em sua simplicidade, ao passo que Alfredo, envolvido por nuvens de egoísmo e ambição, longe de seu teatro-da-vida-real que representava no palco e nos bastidores, era amargo e infeliz.

O tempo passa, o mundo dá voltas, e a história se repete: mais uma vez Alfredo tolhe Camilo em nova promissora empreitada musical; mais uma vez o pai João se omite, em nome da amizade e lealdade que ainda vê, não se sabe como, em Alfredo.

À noite, em sua cama de feno, com as botas sujas de casca de arroz e de barro do chão do circo, cansado do trabalho e da vida, Camilo reflete. Ilusão ou realidade, ele sai de si, não é mais ele, e então olha para si deitado na cama e percebe que, às vezes, um pouco de desencanto é bom. Só o desencanto é capaz de nos revelar o que há por trás da ilusão. A ilusão é uma máscara que nós mesmos colocamos na face da realidade, quando não a queremos ver. O iludido não consegue ver o mundo em que vive, nem a si mesmo. O desiludido, apesar do amargor da desilusão, sabe onde pisa, sabe com quem lida. Apesar de ser difícil para um artista – que faz do encanto sua matéria-prima – lidar com o desencanto, Camilo haverá de aprender. E isto haverá de fazê-lo crescer como homem e como artista, pois, desencantado, é mais fácil buscar-se o encanto verdadeiro.

(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 56-58)



 

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