DESENCANTO
Era a Época de Ouro dos circos. Companhias
circenses percorriam cidades, estados, países, encantando a homens, mulheres e
crianças com sua magia e novidade. Havia atrações de toda espécie e de toda
parte, números famosos e surpresas extraordinárias ao público, animais
exóticos, trapezistas, malabares, corda-bamba, palhaços e cantores-palhaços.
Alfredo era
cantor, um cantor-palhaço que como tantos da época usava o picadeiro como
palco, visando ser conhecido pessoalmente pelo público e também galgando uma
boa fonte de renda. Ele já se havia aventurado pelas rádios em São Paulo, mas o
brilho do prestígio e da glória circense e o dinheiro e o sucesso o levaram a
seguir o rumo dos circos pelo interior do Brasil.
Alfredo era
muito talentoso. Deus lhe havia presenteado com o dom do canto para encantar
multidões. Sua voz potente intimidava, ao passo que a suavidade de sua
interpretação enchia ouvidos e corações de ternura. No entanto, assim como cada
provação que Deus nos impõe é um teste para nossa alma, cada presente d’Ele
também o é... Alfredo cegara ante o verniz da fama, e já não via nada ao seu
redor que lhe importasse que não fosse o seu sucesso e o dinheiro...
Nos
bastidores, longe da plateia, Alfredo tinha amigos, parceiros musicais que lhe
ajudavam das mais variadas formas. Escreviam-lhe canções, oportunizavam-lhe o
contato com outros artistas, emprestavam-lhe sua arte, e muitas vezes até mesmo
lhe presenteavam canções para que ele tomasse para si a autoria das mesmas.
Além disso, devotavam a ele amizade sincera e leal. Um deles, Camilo, filho de
João – o maior parceiro de Alfredo –, era um jovem mais esforçado que talentoso
mas, ainda assim, era uma criatura boa e um bom artista. Não tinha a voz de
Alfredo, nem o verso de seu pai João, mas era um rapaz sensível, criativo e
profundo em suas cançonetas.
Acontece que
um dia, sem aviso prévio e explicação, Alfredo decidiu trocar de circo. Uma das
canções de João, em parceria presenteada com Alfredo, fez um sucesso tremendo e
levou o cantor a uma ganância extrema que, por conveniência econômica, inclinou
João a negar a seu filho Camilo a oportunidade de mudar também para um circo
maior e melhor. Alfredo e João, ainda que o último se sentisse um pouco
arrependido, seguiram viagem e deixaram o jovem para trás, naquele circo já sem
brilho que prendesse Alfredo.
O tempo passa,
o mundo dá voltas, Alfredo e João retornam ao convívio de Camilo que,
renitente, apesar das novas parcerias musicais entre os três, passa a ter
sempre um pé atrás com seus parceiros. Por que haviam lhe deixado? Sua arte não
era suficientemente bela ou funcional? Ou apenas não se enquadrava às
expectativas dos seus parceiros quanto ao seu trato a colegas ou superiores?
Camilo era
extremamente simples, avesso a tratar seus colegas e superiores com falsas e envernizadas
palavras, sorrisos de plástico e atitudes demasiado servis. Mas era feliz em
sua simplicidade, ao passo que Alfredo, envolvido por nuvens de egoísmo e
ambição, longe de seu teatro-da-vida-real que representava no palco e nos
bastidores, era amargo e infeliz.
O tempo passa,
o mundo dá voltas, e a história se repete: mais uma vez Alfredo tolhe Camilo em
nova promissora empreitada musical; mais uma vez o pai João se omite, em nome
da amizade e lealdade que ainda vê, não se sabe como, em Alfredo.
À noite, em
sua cama de feno, com as botas sujas de casca de arroz e de barro do chão do
circo, cansado do trabalho e da vida, Camilo reflete. Ilusão ou realidade, ele
sai de si, não é mais ele, e então olha para si deitado na cama e percebe que,
às vezes, um pouco de desencanto é bom. Só o desencanto é capaz de nos revelar
o que há por trás da ilusão. A ilusão é uma máscara que nós mesmos colocamos na
face da realidade, quando não a queremos ver. O iludido não consegue ver o
mundo em que vive, nem a si mesmo. O desiludido, apesar do amargor da
desilusão, sabe onde pisa, sabe com quem lida. Apesar de ser difícil para um
artista – que faz do encanto sua matéria-prima – lidar com o desencanto, Camilo
haverá de aprender. E isto haverá de fazê-lo crescer como homem e como artista,
pois, desencantado, é mais fácil buscar-se o encanto verdadeiro.
(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 56-58)

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