sábado, 11 de março de 2023

Mais uma de amor - Crônicas afônicas (2014)

MAIS UMA DE AMOR

Suave o toque luzidio das minhas mãos a desnudar tuas planícies, assim como o dia desposa a noite... Olho-me nos açudes do teu olhar profundo e cristalino a refletir o sol; percorro a geografia das tuas colinas como a brisa mansa do amanhecer; meus dedos fazem teus cabelos dançar levemente, como o vento a brincar com as árvores na mata e seus pássaros a anunciar a aurora deste amor; exploro vales, veredas, canhadas, cada relevo...

Roubo o mel dos teus beijos como uma pequena abelha em teus jardins que exalam o aroma da paixão; te sussurro juras ao pé do ouvido feito o murmurar de um riacho; degusto os frutos do teu pomar; me afogo em teus afagos...

Já é dia, e a imensidão do amor excede o alcance da visão. Tão vastos campo e céu que o romance amanhece o dia a perder-se de vista... Lá no horizonte, já não se define o que é um ou outro: chegando-se lá, nada mais há do que outro horizonte distante... O amor é incomensurável, e infinito.

O amor é a paisagem que se vê da janela, onde, ao olhar do coração, os amantes, terra e céu, são uma só coisa. Dois amantes são um só ser, um dentro do outro. Dois amantes são o amor. Mesmo num amor não correspondido, dentro do coração do amador vive a pessoa amada. Mesmo para quem fecha as cortinas, o amor amanhece lá fora. O amor é o dia amanhecendo: não há como evitar.

Em nossas vidas, existem amanheceres, dias de sol a pino, verões escaldantes de quarenta graus, entardeceres, anoiteceres, eclipses, meses de escuridão, invernos rigorosos, até vida sem sol. E assim como o clima é contingente, o amor também o é... Nunca se sabe o que o amor nos reserva... A meteorologia do amor é impossível. Não há satélites. Não há previsão.

Resta-nos viver. Resta-nos amar. E estarmos preparados para as quatro estações.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 48-49)




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