MAIS UMA DE AMOR
Suave o toque luzidio das minhas mãos a
desnudar tuas planícies, assim como o dia desposa a noite... Olho-me nos açudes
do teu olhar profundo e cristalino a refletir o sol; percorro a geografia das
tuas colinas como a brisa mansa do amanhecer; meus dedos fazem teus cabelos
dançar levemente, como o vento a brincar com as árvores na mata e seus pássaros
a anunciar a aurora deste amor; exploro vales, veredas, canhadas, cada
relevo...
Roubo o mel
dos teus beijos como uma pequena abelha em teus jardins que exalam o aroma da
paixão; te sussurro juras ao pé do ouvido feito o murmurar de um riacho;
degusto os frutos do teu pomar; me afogo em teus afagos...
Já é dia, e a
imensidão do amor excede o alcance da visão. Tão vastos campo e céu que o
romance amanhece o dia a perder-se de vista... Lá no horizonte, já não se
define o que é um ou outro: chegando-se lá, nada mais há do que outro horizonte
distante... O amor é incomensurável, e infinito.
O amor é a
paisagem que se vê da janela, onde, ao olhar do coração, os amantes, terra e
céu, são uma só coisa. Dois amantes são um só ser, um dentro do outro. Dois
amantes são o amor. Mesmo num amor não correspondido, dentro do coração do
amador vive a pessoa amada. Mesmo para quem fecha as cortinas, o amor amanhece
lá fora. O amor é o dia amanhecendo: não há como evitar.
Em nossas
vidas, existem amanheceres, dias de sol a pino, verões escaldantes de quarenta
graus, entardeceres, anoiteceres, eclipses, meses de escuridão, invernos
rigorosos, até vida sem sol. E assim como o clima é contingente, o amor também
o é... Nunca se sabe o que o amor nos reserva... A meteorologia do amor é impossível.
Não há satélites. Não há previsão.
Resta-nos
viver. Resta-nos amar. E estarmos preparados para as quatro estações.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 48-49)

Nenhum comentário:
Postar um comentário