quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Joga fora - Crônicas afônicas (2014)

 JOGA FORA

 

Quando tu tiveres caixas e mais caixas de dias difíceis guardados, em que cada hora parece uma eternidade de angústia, em que o ar é pesado demais para respirar, em que um cheiro de tristeza jaz impregnado em cada foto, em cada página, respira fundo, acha coragem e joga fora.

Quando tu estiveres arrumando tuas gavetas da lembrança e encontrares documentos de maus negócios, anotações de planos que não deram certo, sonhos não realizados, sementes que não germinaram por causa dos maus ventos, fecha os olhos, sem temer, e joga fora.

Quando tu olhares as fotografias encrustadas nas paredes da tua memória e perceberes que algumas esmaeceram, perderam as cores, tornaram-se retratos em sépia ou em preto e branco, e os rostos já não são os mesmos, já não dizem as mesmas coisas, já não representam o que já foram por conta do trabalho incessante do presente, desprega-as e joga fora.

Tudo o que vivemos nos transformou e continua nos transformando, isto independe de que guardemos algo ou não.

E guardar com muito apego nos impede de assimilar, de transformar em nosso proveito.

Hoje, joguei tanta coisa fora... Mas nada disso, nem por isso, vou esquecer.

Apenas joguei ao vento as energias, para que se renovem.

Se remoemos o passado, andamos pra trás.

Arruma tuas coisas, revisita teus baús, tuas gavetas, as paredes da tua memória. E tudo que já não serve, joga fora.

Faz bem.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 124-125)




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