JOGA FORA
Quando tu tiveres caixas e mais caixas de
dias difíceis guardados, em que cada hora parece uma eternidade de angústia, em
que o ar é pesado demais para respirar, em que um cheiro de tristeza jaz
impregnado em cada foto, em cada página, respira fundo, acha coragem e joga
fora.
Quando tu
estiveres arrumando tuas gavetas da lembrança e encontrares documentos de maus
negócios, anotações de planos que não deram certo, sonhos não realizados,
sementes que não germinaram por causa dos maus ventos, fecha os olhos, sem
temer, e joga fora.
Quando tu
olhares as fotografias encrustadas nas paredes da tua memória e perceberes que
algumas esmaeceram, perderam as cores, tornaram-se retratos em sépia ou em
preto e branco, e os rostos já não são os mesmos, já não dizem as mesmas
coisas, já não representam o que já foram por conta do trabalho incessante do
presente, desprega-as e joga fora.
Tudo o que
vivemos nos transformou e continua nos transformando, isto independe de que
guardemos algo ou não.
E guardar com
muito apego nos impede de assimilar, de transformar em nosso proveito.
Hoje, joguei
tanta coisa fora... Mas nada disso, nem por isso, vou esquecer.
Apenas joguei
ao vento as energias, para que se renovem.
Se remoemos o
passado, andamos pra trás.
Arruma tuas
coisas, revisita teus baús, tuas gavetas, as paredes da tua memória. E tudo que
já não serve, joga fora.
Faz bem.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 124-125)

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