"AO MESTRE, COM CARINHO!"
Quando ainda no ventre da nossa mãe, donde
talvez possamos ter as primeiras lembranças ou sensações, experimentamos e
desfrutamos do carinho e do amor dos nossos pais ao acariciar-nos imersos no
líquido uterino, recolhidos ao imenso barrigão, onde aprendemos as primeiras
lições de afeto.
Quando
nascemos, dão-nos umas palmadinhas no bumbum, ensinando-nos, ao primeiro choro,
a respirar sem fazer uso do cordão umbilical, bem como recorremos ao seio
materno, quando a ele entregues, para alimentarmo-nos tendo já tolhido o laço à
altura do umbigo.
Depois, aos
poucos, os pais nos ensinam a mastigar, a gatinhar, os primeiros passos, as
primeiras palavras, contar até dez, a bicicleta de rodinha, enfim, uma
infinidade de aprendizados nos é passada de pais para filhos, os quais nos
preparam para seguir adiante.
Em seguida, vem a escola propriamente dita, onde vamos aprender a ler, a escrever, a desenhar, a pintar, a estudar, a pensar, a conviver com as diferenças, a sofrer com elas também, mas tudo é aprendizado. Professores se revezam em importância para nós; a alguns, guardamos com carinho, a outros lhes esquecemos ou por vontade própria ou por terem passado por nós sem deixar marcas. Colegas também são importantes nesta relação de ensino-aprendizagem; dão-nos o bom exemplo do estudioso ou do aplicado, dão-nos o mau exemplo do bagunceiro ou do brigão ou do desinteressado. Amigos também tomam parte importante de nossa formação, haja vista que nem todos os colegas são amigos, e nem todos os amigos são colegas, e não passamos o dia inteiro na escola – também temos a nossa rua ou bairro ou prédio ou condomínio. Tem também os parentes, primos e irmãos, acabam nos sendo amigos, ou somente colegas de família.
Também temos os nossos professores do amor, do amor de homem e mulher, ou de menino e menina (ou demais possibilidades), que geralmente os temos desde a infância e de diversas formas. Os namoricos de criança, que por mais inocentes que sejam, ensinam-nos. Os amores platônicos de adolescente, nunca correspondidos, sempre inspiradores. O primeiro beijo. A primeira vez. Ninguém nasce sabendo. A tudo se aprende. De tudo nos ensinam.
Em verdade, é vivendo que se aprende, com a vida, esta vitalícia professora incansável, que nos aprova e reprova sem restrições, que aplica provas-surpresa, que tem seus próprios métodos de avaliação, que não se restringe a uma única tendência pedagógica, que nos pede a mão à palmatória, que nos escreve à lousa com seu giz de sangue e suor, que nos cobra o conteúdo e nos aconselha, que nos castiga e nos dá amor sem reprimendas, que nos conhece e nos faz conhecer-nos. Nossa formatura é ao longo do processo, e quando ficamos realmente prontos para os seus propósitos, concluímos a escola da vida, ou talvez somente mais uma etapa do ensino de Deus, levando conosco, sabe-se lá para onde, nossos cadernos de anotações, toga e diploma, deixando de herança apenas novos alunos, filhos nossos, para frequentarem a mesma escola, as mesmas salas de aula. Resta-nos agradecer: “Ao Mestre, com carinho”!
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 119-120)

Muito boa e sempre atual
ResponderExcluirObrigado, Mestre! Fraterno abraço!
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