segunda-feira, 30 de outubro de 2023

O amor da minha vida da última semana - Crônicas afônicas (2014)

AMOR DA MINHA VIDA DA ÚLTIMA SEMANA

 

O amor da minha vida da última semana eu virei para o lado e ele já não estava. O amor da minha vida da última semana dormiu comigo e eu acordei só. O amor da minha vida da última semana quando eu fiquei sóbrio já não existia. O amor da minha vida da última semana tirou a maquiagem e, ao ver sua verdadeira face, não o reconheci. O amor da minha vida da última semana eu toquei seu coração e era frio como vil metal.

Coitado do amor, este procurado por legiões de detetives em causa própria, foragido de corações carentes, fugitivo de moças e rapazes na flor da idade e de todas as idades.

Procuram-no em carnavais, sob a máscara do desejo, o ardil de um beijo, o calor do momento, a estiagem do coração e suas miragens. Procuram-no em bares, em copos, sorrisos recicláveis e olhares fugazes, numa cantada rasa delatora de intenções pouco amorosas, numa conversa fiada em novelos de trabalho bem-sucedido, na oferta pretensiosa de um drinque a dois. Procuram-no, inclusive, em festas onde o som é tão alto que toda e qualquer tentativa de diálogo se resume a declarações pouco românticas na intimidade e intimidação ao pé do ouvido.

O amor é foragido da ilusão da beleza, que pode vestir corpos ocos de interesse, de inteligência, de sentimento, de caráter. O amor é foragido do verniz do dinheiro, capaz de dar brilho ao mais opaco dos seres, à mais obscura das almas. O amor é também um foragido do tempo, pois tem sua própria temporalidade, possui uma imprevisibilidade intrínseca, indissociável, imensurável.

O amor é fugitivo da razão, que teima em achar explicação para tudo e todos, em julgar, em prever. O amor é fugitivo do ciúme, da posse, do cerceamento, do tolhimento, da intriga, da manipulação, do joguete, da mentira, da traição. O amor é fugitivo dos corações vazios de amor, ciosos de luxúria, de curtição, de prazer somente.

Nestes tempos de relacionamentos descartáveis, onde palavras e gestos e sentimentos são fugidios e escorregadios, a maior vítima é o amor. O amor não foge daqueles que o buscam, apenas não frequenta os mesmos lugares.

Se eu procurar o amor na ilusão, meu coração será castelo de areia.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 126-127)




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