quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Coisa de criança - Crônicas afônicas (2014)

COISA DE CRIANÇA

 

Quando eu era criança, pensava que quando trovejava era porque o Papai do Céu estava brabo, talvez por alguma travessura minha... meu pai me dizia que não era por isso, que na verdade era um fenômeno físico, ou alguma coisa assim. Mas eu preferia pensar que o Papai do Céu estava brabo comigo, e eu ficava horas pensando, tentando descobrir o que tinha feito de errado para poder pedir perdão e parar de trovejar...

Quando eu era criança, gostava de pular as sombras das árvores no asfalto quando eu saía de carro com meu pai. Iam as rodas da frente primeiro, pulavam, e depois, quando essas tocavam no chão, as detrás é que saltavam, fugindo das sombras, saltitando de luz em luz. Passava a viagem inteira fugindo das sombras, buscando a luz, sem contar nada pra ninguém...

Quando eu era criança, gostava de mirar com os olhos nos bandos de passarinhos que voavam da beira da estrada quando o carro passava. Mirava e atirava em um por um, não errava um tiro. Eles não caíam, não morriam... Era só de brincadeira. E apenas eu sabia como atirava bem com meus olhos...

Quando eu era criança, pensava que o mundo era em preto e branco antes de ser colorido, assim como as fotografias e os filmes antigos. E era lindo ver os vários tons e matizes de cinza, a profundidade das sombras e das paisagens. Certo dia, Papai do Céu teve a divertida ideia de colorir as coisas. Deve ter começado com o pôr do sol e depois com o amanhecer; depois derramou verde sobre os campos e azul sobre as águas e o céu. Então, aos poucos, foi colorindo as frutas, as flores, os animais, as gentes... Só depois coloriu as fotos e a televisão...

Mas isso tudo é coisa de criança. Em verdade, não há encanto algum numa tempestade nem ninguém nos vigiando do cimo das nuvens, não é possível desviar das sombras do caminho e caminhar somente pela luz, nossos olhos não têm poder, e as coisas sempre foram coloridas como hoje são.

Espere... Você não está escutando? Eu estou escutando uma voz, de criança, que vem de dentro de mim, e ela me diz, Não, você está errado, não perca o encanto da vida, não deixe de buscar sempre a luz, não deixe de olhar as coisas com os olhos da alma, nem aos pássaros, nem às pessoas, nem às cores.

Existe uma criança dentro de cada um de nós. Não deixe que a aspereza e sujeira do mundo a macule e a sufoque. Ver o mundo com encanto, fantasia, esperança, poesia e amor, isto é coisa de criança.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 98-99)




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...