terça-feira, 22 de agosto de 2023

A turma do coelhinho Eusébio - Crônicas afônicas (2014)

TURMA DO COELHINHO EUSÉBIO

 

Eusébio era um coelhinho sabichão que adorava ler. Em sua toca se podiam adivinhar estantes repletas de livros, prateleiras abarrotadas de literatura e de poesia. A biblioteca do coelhinho Eusébio era de dar inveja a qualquer colecionador aristocrático, havia poesia de Dante à Quintana, romances de Victor Hugo à Saramago. De verdura em verdura, Eusébio passava seus camponeses dias a mergulhar naquelas páginas que o levavam além.

Mas nem só de verduras e leituras vivia Eusébio, que adorava passear pelo bosque e sentir o aroma das uvas madurando e dos moranguinhos silvestres. Gostava de dar bom dia ao sol, às árvores, às flores, aos demais animais da floresta, e gostava também de fazer novos amiguinhos.

Foi assim que um dia o coelhinho Eusébio se aproximou de uma turminha de amigos que passeava pela floresta, assustando os passarinhos de tanto que esbanjavam energia e fôlego para as brincadeiras e para as conversas que não cessavam.

Oi amiguinhos! Eu sou o coelhinho Eusébio! Vamos brincar?

De pronto, as crianças fizeram amizade com o coelhinho, quase o deixando tonto de tantas perguntas e assuntos e conversas paralelas e gritos de felicidade e cantaroladas intercaladas de risadas.

Depois de brincarem por horas, Eusébio decidiu convidar os novos amigos para conhecerem sua casa e sua biblioteca. No entanto, as crianças, a princípio, não acharam muito divertida a ideia dada pelo coelhinho, de todos lerem um pouco depois do café da tarde. Eusébio então sentiu aquela necessidade de incentivar e cultivar a arte da boa leitura... Abriu uma das gavetas de sua cômoda, da qual cintilava uma luz amarelada e muito brilhante, com fachos púrpura e celeste... Desta gaveta retirou quatro livros e os entregou a cada uma das crianças. E disse o coelhinho Eusébio:

Cada livro é uma janela que se abre para um mundo encantado e desconhecido a nos convidar para conhecê-lo.

As crianças brilharam os olhinhos e cada uma abriu uma janela para um novo mundo. A Letícia se viu como uma criança rica nadando no dinheiro e gastando sua fortuna em roupas e joias caras para descobrir, no fim da história, que mais vale ser rica de amigos e de aventuras. O Felipe leu sobre um menino fã que finalmente conseguiu conhecer seu ídolo, uma cantora que se mostrava antipática e muito chata quando não estava sendo filmada, além de deixar claro que fazia seu trabalho apenas por dinheiro, quando o menino descobria que nem tudo é magia no mundo da televisão e que as pessoas mais importantes para nós são aquelas que nos amam. O Rodrigo mergulhou numa aventura de tirar o fôlego, sobre futebol, onde o herói da história aprendeu a respeitar mais as diferenças, inclusive em se tratando de rivalidades esportivas. E o Gabriel, o único quietinho da turma, se deixou levar por uma comédia hilariante, na qual o personagem principal era muito tímido e, aos poucos, aprendeu a se expressar mais e se divertir com os amigos.

Cada livro é uma janela que se abre para um mundo encantado e desconhecido a nos convidar para conhecê-lo , repetiu o coelhinho Eusébio...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 106-107)




quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Amanhã, quando eu morrer - Crônicas afônicas (2014)

AMANHÃ, QUANDO EU MORRER

 

Amanhã, quando eu morrer, vou enganar o mundo num aceno vago, despedida falsa.

Quando eu te disse “eu te amo”, nessas palavras te entreguei meu coração.

Quando eu te pedi “por favor”, nesse momento te alcancei minha esperança.

Quando eu te disse “obrigado”, ali te dei minha gratidão.

Quando eu te roguei “vem comigo”, contigo reparti meu medo.

Quando eu te convidei “fica comigo”, contigo dividi minha solidão.

Quando eu te disse “meu amigo”, trocamos lealdade e amizade.

Eu não vou partir, pois já me reparti com vocês, assim como não vou sozinho, vou com todos vocês.

Amanhã, quando eu morrer, vou continuar vivendo em vocês, e vocês vão morrer um pouco em mim.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 104)




segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Quando o giz acaricia a lousa - Crônicas afônicas (2014)

QUANDO O GIZ ACARICIA A LOUSA

 

Quando o giz acaricia a lousa, sussurrando palavras brancas, olhinhos brilham tanto de curiosidade que seria um pecado chamar-lhes ‘a-lunos’, sem luz.

Quando o giz acaricia a lousa, piso ou teto salarial se tornam teto e piso da sala de aula que o professor transforma em reino de riquezas impalpáveis.

Quando o giz acaricia a lousa, cada descoberta é uma janela que se descortina, uma porta que se abre, e um abraço que acolhe.

Quando o giz acaricia a lousa, o silêncio se transforma em palavra, a penumbra se ilumina, a verdade ganha força, caem as mordaças, desatam-se as vendas, desvelam-se os véus.

Quando o giz acaricia a lousa, benévolas iscas fisgam o interesse da classe com seus anzóis luzidios.

Misto de pai e mãe, professores dão asas, mas advertem dos maus ventos, dão o peixe, mas ensinam a pescar, estendem a mão, mas encorajam a andar por si só, abraçam para confortar, mas aconselham, ofertam a luz do conhecimento, mas incentivam o brilho próprio. O professor contempla a magia do ensinar, e com isto também aprende, quando o giz acaricia a lousa.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 102)




quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Por entre as flores - Crônicas afônicas (2014)

POR ENTRE AS FLORES


Por entre as rosas veio o vento a falar de amor, seu perfume e seus espinhos. Do rubor que seduz ao passo que cega, do aroma que cativa porque embriaga, dos espinhos que instigam, pois privam.

Por entre os lírios veio o vento a falar de Deus, Suas dádivas e Sua espada de fogo. Da fé que move montanhas porque acredita, da esperança que é a última que morre, pois espera.

Por entre as árvores em flor veio o vento a falar da vida, seus sabores e dissabores. Das raízes que garantem sustento orgânico e moral, da semente donde a vida rebrota, dos frutos que se colhe e os que caem por maduros.

Por entre os crisântemos veio o vento a falar de morte, seu ponto final, ou dois pontos, nova linha e travessão. Da ausência do ente querido na cadeira vazia, no catre frio, da presença daquele na ausência que se nega a ausentar-se.

Por entre as flores fala a poesia num sopro quase inefável. Por entre as flores brilha a luz dos olhos dos apaixonados. Por entre as flores conversam a mãe gestante e o filho que gesta. Por entre as flores o silêncio canta uma canção. Por entre as flores estrelas beijam gotas de orvalho.

De que adiantaria a primavera se não se pudesse estar por entre as flores?

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 100)




quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Coisa de criança - Crônicas afônicas (2014)

COISA DE CRIANÇA

 

Quando eu era criança, pensava que quando trovejava era porque o Papai do Céu estava brabo, talvez por alguma travessura minha... meu pai me dizia que não era por isso, que na verdade era um fenômeno físico, ou alguma coisa assim. Mas eu preferia pensar que o Papai do Céu estava brabo comigo, e eu ficava horas pensando, tentando descobrir o que tinha feito de errado para poder pedir perdão e parar de trovejar...

Quando eu era criança, gostava de pular as sombras das árvores no asfalto quando eu saía de carro com meu pai. Iam as rodas da frente primeiro, pulavam, e depois, quando essas tocavam no chão, as detrás é que saltavam, fugindo das sombras, saltitando de luz em luz. Passava a viagem inteira fugindo das sombras, buscando a luz, sem contar nada pra ninguém...

Quando eu era criança, gostava de mirar com os olhos nos bandos de passarinhos que voavam da beira da estrada quando o carro passava. Mirava e atirava em um por um, não errava um tiro. Eles não caíam, não morriam... Era só de brincadeira. E apenas eu sabia como atirava bem com meus olhos...

Quando eu era criança, pensava que o mundo era em preto e branco antes de ser colorido, assim como as fotografias e os filmes antigos. E era lindo ver os vários tons e matizes de cinza, a profundidade das sombras e das paisagens. Certo dia, Papai do Céu teve a divertida ideia de colorir as coisas. Deve ter começado com o pôr do sol e depois com o amanhecer; depois derramou verde sobre os campos e azul sobre as águas e o céu. Então, aos poucos, foi colorindo as frutas, as flores, os animais, as gentes... Só depois coloriu as fotos e a televisão...

Mas isso tudo é coisa de criança. Em verdade, não há encanto algum numa tempestade nem ninguém nos vigiando do cimo das nuvens, não é possível desviar das sombras do caminho e caminhar somente pela luz, nossos olhos não têm poder, e as coisas sempre foram coloridas como hoje são.

Espere... Você não está escutando? Eu estou escutando uma voz, de criança, que vem de dentro de mim, e ela me diz, Não, você está errado, não perca o encanto da vida, não deixe de buscar sempre a luz, não deixe de olhar as coisas com os olhos da alma, nem aos pássaros, nem às pessoas, nem às cores.

Existe uma criança dentro de cada um de nós. Não deixe que a aspereza e sujeira do mundo a macule e a sufoque. Ver o mundo com encanto, fantasia, esperança, poesia e amor, isto é coisa de criança.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 98-99)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...