VAMOS CONSTRUIR?
E foi Dona
Aranha a tecer na linha das horas sua obra de arte em forma de trama e
armadilha. Que caçador é capaz de caçar assim, com tamanha beleza? A presa com
pressa, sem olhos pra arte, ficou presa. O bicho-homem na obra interviu. Por
ânsia de destruir, destruiu.
E foi Dona Formiga a construir seu armazém de areia de corredores,
depósito e escritório. Abriu picadas e assentou estradas, juntou estoque pra
enfrentar o período de entressafra, agregou trabalho, não mediu esforços,
trabalhou em cooperativa. Que associação é capaz de funcionar assim com tanta
eficácia? O bicho-homem na empresa interviu. Por ânsia de destruir, destruiu.
E foi Dona Abelha de flor em flor a buscar matéria-prima pra
fabricar seu produto. Vasculhou todos os jardins, vistoriou todas as árvores em
flor. Cada operária numa direção, todas de volta pra mesma colmeia, pro mesmo
reino. Em seu gabinete real, a rainha saboreia o seu reinado que governa com
autoridade e austeridade, isto lhe apraz. Que Estado governa assim com tal
competência? O bicho-homem no reino interviu. Por ânsia de destruir, destruiu.
Vamos construir? Deixar de ver no outro um rival, de pensar a vida
como uma competição, de achar na felicidade e no talento alheio motivo pra
inveja, de destruir toda e qualquer possibilidade de união, de cooperação, de
entendimento, de trabalho em grupo... Destruímos laços familiares, amizades e
coleguismo, relações de afeto, patrimônio público, teias de aranha e obras de arte,
formigueiros e ambientes de trabalho, colmeias e governo...
Sigamos o exemplo da natureza, bicho-homem... Vamos construir?
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 94-95)

Bravos mestre uma crônica com uma narrativa bem atual. Um forte abraço!
ResponderExcluirGracias, Prod! Grande abraço.
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