sábado, 17 de junho de 2023

Mateando solito - Crônicas afônicas (2014)

MATEANDO SOLITO

 

Sorvo os primeiros raios de sol do amanhecer enquanto a pampa desperta despacito, como quem mateia solito. O amargo do mate me traz recuerdos de esbarradas e boléus que o potro xucro do destino me deu pelos rodeios da vida... E foi cada rodada, de levantar polvadeira...

Na gineteada do amor, tentei de toda sorte não ir ao chão, mas a cada galope, cada paixão, o tombo da saudade insistiu em me quedar do lombo... Me aconcheguei com a solidão, que em mim se aquerenciou, que só a água do mate me aquece o coração...

Na gineteada da vida, por ser redomão, nunca aceitei cabresto de patrão, e apesar da guaiaca na rapa, mais me valem hoje honra e orgulho em ordem do que meia-dúzia de cobres... Nunca me faltou coragem pra peleia, por mais que a parelha fosse feia. Nunca levei desaforo pra casa, por mais que a adaga da vida me desse pranchaço e talho...

Na gineteada da morte, china maleva que no horizonte me espera, dou boca ao potro-destino sem sofrenar, solto as rédeas e me vou de peito aberto pra onde eu deva ir... Já vivi muitas primaveras e sei que o Patrão Velho lá de cima sabe o meu tempo e minha hora...

Mas ao matear solito não me sinto assim tão só. Tenho o cusco debaixo do banco, enrodilhado, parceiro de lida e rancho, que vez em quando abre um dos olhos pra me espiar... Tenho o mate que me aquenta e me aviva a memória, rememorando histórias minhas que apesar de amargas vou sorvendo aos poucos... Tenho o rancho que eu mesmo ergui com meu suor e trabalho e que me abriga nas invernias com pelego e fogo e nos temporais com palma-benta e cruz-de-sal... Tenho a bicharada em volta que vive no seu mundo, mas me empresta companhia no meu... Mais adiante tenho o galpão onde as lembranças de fogo-de-chão e cantoria de cordeona e violão ainda povoam as paredes de madeira empoeirada... Meu gateado me espreita do potreiro e por certo mateia comigo...

O sol já sorveu toda noite e toda névoa que cobriam as coxilhas, e agora aquenta como a água do mate. É hora de acordar pra o dia e deixar minhas noites na erva lavada. Ainda tenho lida pela frente. O meu peito agora quente já sorveu seus amargos e começa a sentir o doce aroma da manhã de mais uma primavera. É hora de encilhar e de seguir, venta aberta, pela pampa já desperta. É hora de sobrar cavalo. Sou gaúcho e não me achico pra esse tal potro-destino.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 92-93)




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