quarta-feira, 14 de junho de 2023

É lá fora que eu me vingo do tempo - Crônicas afônicas (2014)

É LÁ FORA QUE EU ME VINGO DO TEMPO

 

Tiro os óculos escuros para ver as cores reais que dançam do outro lado do para-brisa do carro, os incontáveis tons de verde e marrom e bege entre pasto e árvores e coxilhas que quanto mais distantes mais pendem ao azul do céu e mais perto dele chegam, o azul do céu com suas nuvens brancas que mais parecem pinceladas sfumato de Da Vinci e véus de noiva em dégradé ao vento... A poeira da estrada de chão alaranjada empresta um efeito especial quando se antepõe à paisagem e lhe esmaece, vários sóis surgem cada um em um açude que se apresenta à visão iluminando ainda mais o dia e as cores, sinuosos riachos serpenteiam água pura e cristalina a verter do ventre da terra e sua mata ciliar também serpenteia o campo a declarar sua presença e seu caminho...

Lá fora eu não uso relógio, apenas o sol com seus ponteiros de luz me orientam durante o dia e a lua com sua colcha de estrelas durante a noite. Se o dia ou a noite está nublada ou chuvosa, a relação de tempo é outra, bem mais lenta e flutuante... É lá fora que eu me vingo do tempo que me sufoca me impondo cada vez mais trabalho, ganância e responsabilidade... É lá fora que meus amigos cães me mostram o valor da amizade e da lealdade que não há nas relações humanas de forma assim tão inocente e sincera... É lá fora que um casal solitário de colhereiros cor-de-rosa-salmão num banhado me ensina sobre cumplicidade e fidelidade... É lá fora que as tartarugas da taipa do açude têm a tranquilidade de tomar banho de sol e as vacas e bezerros a confiança de se achegar às casas no final da tarde...

Lá fora, nem a mais venenosa das cobras tem a peçonha da inveja, nem a mais ardida das ortigas dói tanto quanto o desprezo, nem o mais fundo açude representa o perigo das esquinas, nem a mata mais fechada desorienta como o trânsito, nem a noite mais escura amedronta como a solidão das multidões...

É lá fora que eu me vingo do tempo. Lá, as horas não me alcançam, a ampulheta não me escorre, o relógio não me governa. Não sei como Cronos me enganou por tanto tempo...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 90-91)




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