É LÁ FORA QUE EU ME VINGO DO TEMPO
Tiro os óculos escuros para ver as cores reais que
dançam do outro lado do para-brisa do carro, os incontáveis tons de verde e
marrom e bege entre pasto e árvores e coxilhas que quanto mais distantes mais
pendem ao azul do céu e mais perto dele chegam, o azul do céu com suas nuvens
brancas que mais parecem pinceladas sfumato de Da Vinci e véus de noiva em dégradé ao vento... A poeira da estrada de chão alaranjada
empresta um efeito especial quando se antepõe à paisagem e lhe esmaece, vários
sóis surgem cada um em um açude que se apresenta à visão iluminando ainda mais
o dia e as cores, sinuosos riachos serpenteiam água pura e cristalina a verter
do ventre da terra e sua mata ciliar também serpenteia o campo a declarar sua
presença e seu caminho...
Lá fora eu não uso relógio, apenas o sol com seus
ponteiros de luz me orientam durante o dia e a lua com sua colcha de estrelas
durante a noite. Se o dia ou a noite está nublada ou chuvosa, a relação de
tempo é outra, bem mais lenta e flutuante... É lá fora que eu me vingo do tempo
que me sufoca me impondo cada vez mais trabalho, ganância e responsabilidade...
É lá fora que meus amigos cães me mostram o valor da amizade e da lealdade que
não há nas relações humanas de forma assim tão inocente e sincera... É lá fora
que um casal solitário de colhereiros cor-de-rosa-salmão num banhado me ensina
sobre cumplicidade e fidelidade... É lá fora que as tartarugas da taipa do
açude têm a tranquilidade de tomar banho de sol e as vacas e bezerros a
confiança de se achegar às casas no final da tarde...
Lá fora, nem a mais venenosa das cobras tem a peçonha
da inveja, nem a mais ardida das ortigas dói tanto quanto o desprezo, nem o
mais fundo açude representa o perigo das esquinas, nem a mata mais fechada
desorienta como o trânsito, nem a noite mais escura amedronta como a solidão
das multidões...
É lá fora que eu me vingo do tempo. Lá, as horas não
me alcançam, a ampulheta não me escorre, o relógio não me governa. Não sei como
Cronos me enganou por tanto tempo...
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 90-91)

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