quarta-feira, 5 de julho de 2023

Vamos construir? - Crônicas afônicas (2014)

VAMOS CONSTRUIR?

 

E foi Dona Aranha a tecer na linha das horas sua obra de arte em forma de trama e armadilha. Que caçador é capaz de caçar assim, com tamanha beleza? A presa com pressa, sem olhos pra arte, ficou presa. O bicho-homem na obra interviu. Por ânsia de destruir, destruiu.

E foi Dona Formiga a construir seu armazém de areia de corredores, depósito e escritório. Abriu picadas e assentou estradas, juntou estoque pra enfrentar o período de entressafra, agregou trabalho, não mediu esforços, trabalhou em cooperativa. Que associação é capaz de funcionar assim com tanta eficácia? O bicho-homem na empresa interviu. Por ânsia de destruir, destruiu.

E foi Dona Abelha de flor em flor a buscar matéria-prima pra fabricar seu produto. Vasculhou todos os jardins, vistoriou todas as árvores em flor. Cada operária numa direção, todas de volta pra mesma colmeia, pro mesmo reino. Em seu gabinete real, a rainha saboreia o seu reinado que governa com autoridade e austeridade, isto lhe apraz. Que Estado governa assim com tal competência? O bicho-homem no reino interviu. Por ânsia de destruir, destruiu.

Vamos construir? Deixar de ver no outro um rival, de pensar a vida como uma competição, de achar na felicidade e no talento alheio motivo pra inveja, de destruir toda e qualquer possibilidade de união, de cooperação, de entendimento, de trabalho em grupo... Destruímos laços familiares, amizades e coleguismo, relações de afeto, patrimônio público, teias de aranha e obras de arte, formigueiros e ambientes de trabalho, colmeias e governo...

Sigamos o exemplo da natureza, bicho-homem... Vamos construir?

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 94-95)




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