O SORRISO DA LUA
Inebriado de poesia, apaixonei-me pelo
sorriso da lua.
Sorriso
disfarçado por véus de nuvens que velavam sua forma, mas lhe emprestavam o
mistério de uma luz detrás da cortina.
Sorriso
noturno de alumbrar coração perdido em noites de solidão madura e crua a
perambular por tabernas úmidas e desabitadas de amor. Sorriso inacessível que
sorri, mas nega seus lábios aos reles mortais entregues aos vícios da carne e
cegos à resplandecência do espírito.
Sorriso
preciso, na medida certa do que eu preciso.
Aquela moça
tem o sorriso da lua. Seus cabelos lisos e negros dançam sobre sua boca e lhe
velam os lábios sutil e escandalosamente, levando-me a querer cada vez mais
desvendar o seu sagrado mistério.
A noite que
lhe envolve lhe realça o lume e abraça e aquece os meus olhos opacos de tão
sós; meu coração palpita na garganta e me rouba a voz; meu espírito aprisionado
no invólucro carnal se agita tanto que quase abandona o corpo que por isso
treme; toda esta confusão me paralisa ao passo que já não caibo mais em
mim.
A moça passa
por mim sem que eu consiga mover um dedo sequer, ainda que em meus interiores
haja vulcões em erupção, tempestades, tornados, tremores de terra e maremotos;
aquela musa expõe sua graça de tal forma que ao mesmo tempo em que se põe na
praça se nega ao freguês pela sua magnitude como fosse peça da arte divina,
obra prima de Deus.
Ela tem o
sorriso preciso e infinito, na medida certa do que eu preciso.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 78-79)

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