terça-feira, 2 de maio de 2023

O sorriso da lua - Crônicas afônicas (2014)

SORRISO DA LUA

 

Inebriado de poesia, apaixonei-me pelo sorriso da lua.

Sorriso disfarçado por véus de nuvens que velavam sua forma, mas lhe emprestavam o mistério de uma luz detrás da cortina.

Sorriso noturno de alumbrar coração perdido em noites de solidão madura e crua a perambular por tabernas úmidas e desabitadas de amor. Sorriso inacessível que sorri, mas nega seus lábios aos reles mortais entregues aos vícios da carne e cegos à resplandecência do espírito.

Sorriso preciso, na medida certa do que eu preciso. 

Aquela moça tem o sorriso da lua. Seus cabelos lisos e negros dançam sobre sua boca e lhe velam os lábios sutil e escandalosamente, levando-me a querer cada vez mais desvendar o seu sagrado mistério.

A noite que lhe envolve lhe realça o lume e abraça e aquece os meus olhos opacos de tão sós; meu coração palpita na garganta e me rouba a voz; meu espírito aprisionado no invólucro carnal se agita tanto que quase abandona o corpo que por isso treme; toda esta confusão me paralisa ao passo que já não caibo mais em mim. 

A moça passa por mim sem que eu consiga mover um dedo sequer, ainda que em meus interiores haja vulcões em erupção, tempestades, tornados, tremores de terra e maremotos; aquela musa expõe sua graça de tal forma que ao mesmo tempo em que se põe na praça se nega ao freguês pela sua magnitude como fosse peça da arte divina, obra prima de Deus.

Ela tem o sorriso preciso e infinito, na medida certa do que eu preciso.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 78-79)




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