ABRAÇO DE PAI
O pai é pura e cristalina água de
poço quando há sede na vida, e sempre há... Da vertente bebe o moço conselhos,
rumo e guarida para si e para os seus.
O pai é a
estrada certa da encruzilhada; é o caminho já trilhado com o seu aprendizado.
Do horizonte, o pai aponta o norte em noite serena e estrelada.
O pai é o
cerno do angico nas noites de ventania, que verga os ombros, mas não tomba. O
pai aquece o rancho de carinho e abrigo nos tempos de invernia.
O pai, por ser
vaqueano, vai repontando a tropilha, e na invernada dos anos, estende-se como o
esteio de sua família.
O pai acolhe o
filho como se fosse um abraço.
Um abraço pode
ser, à primeira mirada, um gesto simples. Mas este enlace pode significar muito
perante as ausências, ou ante os erros, ou frente às mágoas. Pode também trazer
conforto, ou alegria, matar saudade, dar ou pedir perdão, um ‘boa sorte’ ou um
‘seja bem-vindo’. Quem pode mensurar um abraço? Ou cronometrar seu tempo de
efeito?
Um abraço pode
medir quilômetros e abraçar todo o teu mundo. Um abraço pode durar dias te
abraçando.
O relógio não
é uma invenção da alma; em seus ponteiros, poucos segundos, mas após dias e
dias, o abraço continua te abraçando...
Algumas
presenças não se ausentam, apenas prenunciam o próximo encontro. Algumas
presenças são um presente, mesmo enquanto ausentes. Agora mesmo, um abraço pode
ainda te estar abraçando.
Filhos seguem
sua trilha e do pai repisam os passos... Tentam abraçar o mundo, alçam voo,
lançam-se ao vento, mas quando o vento sopra contra, ou uma asa se quebra, ou
quando o mundo não cabe entre os braços, o abraço do pai é o melhor abrigo. E o
pai acolhe o filho, como se fosse um abraço.
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 82-83)

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