sexta-feira, 26 de maio de 2023

Feliz aniversário! - Crônicas afônicas (2014)

FELIZ ANIVERSÁRIO!

 

A cada aniverso, começamos a escrever um novo verso do nosso poema ao universo. Um verso metrificado, de doze sílabas. No entanto, a poesia transpõe a barreira do tempo e faz com que as medidas temporais sejam sentidas de acordo com seu teor poético: dias sem rima, semanas de palavras ocas ou meses de imagens inócuas passam desapercebidos de nossa leitura; porém, um segundo de paralisia por ver a pessoa amada a sua frente, instantes de brilho no olhar decorrentes de um inesperado elogio, um abraço que teima em negar a ausência do abraçador, ou até mesmo minutos de drama ou tragédia alargam sua duração, ultrapassam os ponteiros do relógio, violam nossa percepção.

Algumas presenças não se ausentam, apenas prenunciam um próximo encontro. Após dias e dias, continuamos a abraçar aquele abraço, a saborear aquele beijo, a tocar aquela pele. Poesia do amor.

Algumas presenças nunca estão presentes, pois as tornamos ausentes quando não estamos realmente presentes. Pessoas em outra sintonia, com ideias totalmente avessas às nossas. Pessoas ignorantes ao respeito, intolerantes à diferença. Nem ouvimos sua voz, apenas respondemos suas perguntas de maneira a tentar encerrar urgentemente o assunto. Sequer as vemos, pois nosso olhar não as percebe como elas aparentam ser, e sim como elas são para nós: insignificantes. São poemas sem poesia. Letra morta.

Algumas presenças são um presente, mesmo enquanto ausentes. Suas presenças agradáveis ficam guardadas, aconchegadas dentro de nós que nem notamos sua ausência ou, se notamos, sua presença interior nos conforta. A poesia nos conforta.

No entanto, às vezes temos que nos contentar em conversar com uma ausência, e acreditar que a saudade é só uma maneira de guardar. Junto com uma presença-ausente, abstraímo-nos para um tempo paralelo, onde podemos torná-la presente num lugar em comum. A poesia nos transporta.

A cada aniverso, portanto, temos a oportunidade de planejar o próximo verso. Ainda que cada verso em si guarde uma relação com os anteriores, da mesma forma ele estabelece relação com os versos porvir. É certo que o planejamento muita vez não dá certo, ou então a inspiração nos leva a mandar pra longe o planejado e ouvir a voz do coração.

A cada aniverso, a cada troca de verso, temos uma linha em branco que anseia pela poesia da vida. O teu poema ao universo, assim como aguarda pelo teu próximo verso, te dá a oportunidade de escrevê-lo... Inspira-te!

Hoje é meu aniversário. Hoje aniverso. Hoje converso comigo a fim de começar a escrever o próximo verso do meu poema ao universo. Não me preocupo muito com rima, ou com a norma culta, gramática, semântica, ortografia, ou reforma ortográfica. Tampouco me esmero a procurar metáforas inéditas, rimas raras, estilo. Repito termos, emprego-os ou os desemprego sem aviso prévio. Apenas escrevo de peito aberto a poesia do meu coração e a poesia que meus olhos veem no mundo ou gostariam de ver.

Que meu próximo verso contenha a poesia que não se contém e a inspiração que não se doma. A mim mesmo, feliz aniversário!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p.60-61)




terça-feira, 23 de maio de 2023

Estelar - Crônicas afônicas (2014)

ESTELAR

 

Aqui, nas estrelas, eu vou ficar; tão perto da lua, tão perto do sol... Desse céu que é todinho meu: o céu da tua boca. Teus beijos me abrem os portões do paraíso que eu tanto busco e preciso; são meu afã, meu torpor, levam-me às alturas, abalam-me as estruturas, fazem-me voar.

Daqui, das estrelas, eu vou olhar-te – meus olhos são quase estrelas – e observar-te e cuidar-te todos os dias, acordar-te, fazer-te dormir, fazer-te sonhar. Eu vou bater asas e voar alto, pegar impulso, e mergulhar de cabeça nos teus sonhos, como o céu mergulha no mar.

Eu não quero mais horizontes, essas linhas ciumentas que nos tentam separar, que separam céu e mar.

Pra cá, pras estrelas, eu vou trazer-te e vou dá-las todas pra ti, teremos todo o céu só pra nós... Vamos brincar, correr atrás de caudas de cometas, contar estrelas, beijar a lua, catar asteroides, viajar a favor dos ventos solares, redesenhar as constelações... E o nosso amor estelar fará brilhar o olhar de cada ser que ama, ao olhar o céu todo o mundo vai saber de nós e no nosso amor espelhar-se.

Somos estrelas cadentes, caindo sem fechar os olhos no espaço lindo e profundo do Amor Maior.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 86)




quinta-feira, 18 de maio de 2023

Oração a si mesmo - Crônicas afônicas (2014)

 ORAÇÃO A SI MESMO

 

Hoje, oro a mim mesmo. Oro para que eu não perca horas do dia dedicando-me a coisas que não me enobreçam e horas de sono arrependendo-me do que fiz ou deixei de fazer. Rogo para eu ser fiel a mim mesmo e não me desonrar vendendo minha opinião ou meu sorriso ou carinho. Peço a mim que eu seja forte o suficiente para encarar o mundo sem ilusão e frágil o bastante para não perder o encanto do amor e o brilho no olhar. Rezo para que a fé e a esperança não me acomodem, para que o conhecimento e a dificuldade não me descreiam, para que a cabeça e o coração não discordem, para que a audácia e a segurança se equilibrem, para que a inveja dos outros me dê confiança do caminho certo e a minha inveja me torne uma pessoa melhor. Suplico que eu caia de pé e fique de pé humildemente, que eu perca para aprender a vencer e vença para valorizar a derrota. Que seja aonde for eu não esqueça de mim, que haja o que houver eu não esmoreça, que venha o que vier eu receba de peito aberto, que custe o que custar eu dê a cara a tapa e o coração por inteiro. Imploro para que eu nunca esqueça que o trabalho dignifica, que o dinheiro que eu tenho e ganho é meu e não eu dele, que amor não se nega e se aplica aos relacionamentos amorosos, de amizade, de trabalho, a Deus, à natureza, aos animais. Clamo por justiça às minhas atitudes, certeza às minhas escolhas, reflexão às minhas dúvidas, paz de espírito e consciência limpa.

Hoje, oro a mim mesmo para pedir-me perdão por não ser perfeito e também por buscar a perfeição. Hoje, oro a mim mesmo para prometer-me fé e questionamento, esperança e trabalho, segurança e ousadia, cuidado e coragem, foco e curiosidade, apoio e crítica, garra e sensibilidade, altivez e humildade, luta e virtude, corpo e alma, razão e amor.

Que eu seja bom equilibrista, pois a vida é equilíbrio tênue.

Amém!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 84-85)




quarta-feira, 10 de maio de 2023

Abraço de pai - Crônicas afônicas (2014)

ABRAÇO DE PAI

 

O pai é pura e cristalina água de poço quando há sede na vida, e sempre há... Da vertente bebe o moço conselhos, rumo e guarida para si e para os seus.

O pai é a estrada certa da encruzilhada; é o caminho já trilhado com o seu aprendizado. Do horizonte, o pai aponta o norte em noite serena e estrelada.

O pai é o cerno do angico nas noites de ventania, que verga os ombros, mas não tomba. O pai aquece o rancho de carinho e abrigo nos tempos de invernia.

O pai, por ser vaqueano, vai repontando a tropilha, e na invernada dos anos, estende-se como o esteio de sua família.

O pai acolhe o filho como se fosse um abraço.

Um abraço pode ser, à primeira mirada, um gesto simples. Mas este enlace pode significar muito perante as ausências, ou ante os erros, ou frente às mágoas. Pode também trazer conforto, ou alegria, matar saudade, dar ou pedir perdão, um ‘boa sorte’ ou um ‘seja bem-vindo’. Quem pode mensurar um abraço? Ou cronometrar seu tempo de efeito?

Um abraço pode medir quilômetros e abraçar todo o teu mundo. Um abraço pode durar dias te abraçando.

O relógio não é uma invenção da alma; em seus ponteiros, poucos segundos, mas após dias e dias, o abraço continua te abraçando...

Algumas presenças não se ausentam, apenas prenunciam o próximo encontro. Algumas presenças são um presente, mesmo enquanto ausentes. Agora mesmo, um abraço pode ainda te estar abraçando.

Filhos seguem sua trilha e do pai repisam os passos... Tentam abraçar o mundo, alçam voo, lançam-se ao vento, mas quando o vento sopra contra, ou uma asa se quebra, ou quando o mundo não cabe entre os braços, o abraço do pai é o melhor abrigo. E o pai acolhe o filho, como se fosse um abraço.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 82-83)




quinta-feira, 4 de maio de 2023

Em cinco minutos - Crônicas afônicas (2014)

EM CINCO MINUTOS

 

       Cinco minutos podem guardar uma crônica, que se houvesse mais tempo para si não seria assim como é, como deveria ser. Cinco minutos podem guardar uma declaração de amor, que por mais breve que seja tem efeito para uma vida inteira. Cinco minutos podem guardar uma canção ou um cheiro passageiro que nos lembra uma pessoa especial ou um sentimento bom. Cinco minutos podem guardar uma espera que se espera em vão, que por mais que se espere não chega, e nessa esperança o tempo se esvai, evapora. Cinco minutos passam muito depressa, e a pressa nos oprime, nos aprisiona a um tempo que não nos pertence. Cinco minutos que eu tinha para esta crônica chegam ao fim sem que ela chegue a um final, mas deixa na sua ampulheta um pouco do tempo cristalizado em palavras, vultos da metáfora da vida.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 80)




terça-feira, 2 de maio de 2023

O sorriso da lua - Crônicas afônicas (2014)

SORRISO DA LUA

 

Inebriado de poesia, apaixonei-me pelo sorriso da lua.

Sorriso disfarçado por véus de nuvens que velavam sua forma, mas lhe emprestavam o mistério de uma luz detrás da cortina.

Sorriso noturno de alumbrar coração perdido em noites de solidão madura e crua a perambular por tabernas úmidas e desabitadas de amor. Sorriso inacessível que sorri, mas nega seus lábios aos reles mortais entregues aos vícios da carne e cegos à resplandecência do espírito.

Sorriso preciso, na medida certa do que eu preciso. 

Aquela moça tem o sorriso da lua. Seus cabelos lisos e negros dançam sobre sua boca e lhe velam os lábios sutil e escandalosamente, levando-me a querer cada vez mais desvendar o seu sagrado mistério.

A noite que lhe envolve lhe realça o lume e abraça e aquece os meus olhos opacos de tão sós; meu coração palpita na garganta e me rouba a voz; meu espírito aprisionado no invólucro carnal se agita tanto que quase abandona o corpo que por isso treme; toda esta confusão me paralisa ao passo que já não caibo mais em mim. 

A moça passa por mim sem que eu consiga mover um dedo sequer, ainda que em meus interiores haja vulcões em erupção, tempestades, tornados, tremores de terra e maremotos; aquela musa expõe sua graça de tal forma que ao mesmo tempo em que se põe na praça se nega ao freguês pela sua magnitude como fosse peça da arte divina, obra prima de Deus.

Ela tem o sorriso preciso e infinito, na medida certa do que eu preciso.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 78-79)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...