FELIZ ANIVERSÁRIO!
A cada aniverso,
começamos a escrever um novo verso do nosso poema ao universo. Um verso
metrificado, de doze sílabas. No entanto, a poesia transpõe a barreira do tempo
e faz com que as medidas temporais sejam sentidas de acordo com seu teor
poético: dias sem rima, semanas de palavras ocas ou meses de imagens inócuas
passam desapercebidos de nossa leitura; porém, um segundo de paralisia por ver
a pessoa amada a sua frente, instantes de brilho no olhar decorrentes de um
inesperado elogio, um abraço que teima em negar a ausência do abraçador, ou até
mesmo minutos de drama ou tragédia alargam sua duração, ultrapassam os
ponteiros do relógio, violam nossa percepção.
Algumas
presenças não se ausentam, apenas prenunciam um próximo encontro. Após dias e
dias, continuamos a abraçar aquele abraço, a saborear aquele beijo, a tocar
aquela pele. Poesia do amor.
Algumas
presenças nunca estão presentes, pois as tornamos ausentes quando não estamos
realmente presentes. Pessoas em outra sintonia, com ideias totalmente avessas
às nossas. Pessoas ignorantes ao respeito, intolerantes à diferença. Nem
ouvimos sua voz, apenas respondemos suas perguntas de maneira a tentar encerrar
urgentemente o assunto. Sequer as vemos, pois nosso olhar não as percebe como
elas aparentam ser, e sim como elas são para nós: insignificantes. São poemas
sem poesia. Letra morta.
Algumas
presenças são um presente, mesmo enquanto ausentes. Suas presenças agradáveis
ficam guardadas, aconchegadas dentro de nós que nem notamos sua ausência ou, se
notamos, sua presença interior nos conforta. A poesia nos conforta.
No entanto, às
vezes temos que nos contentar em conversar com uma ausência, e acreditar que a
saudade é só uma maneira de guardar. Junto com uma presença-ausente, abstraímo-nos
para um tempo paralelo, onde podemos torná-la presente num lugar em comum. A
poesia nos transporta.
A cada
aniverso, portanto, temos a oportunidade de planejar o próximo verso. Ainda que
cada verso em si guarde uma relação com os anteriores, da mesma forma ele
estabelece relação com os versos porvir. É certo que o planejamento muita vez
não dá certo, ou então a inspiração nos leva a mandar pra longe o planejado e
ouvir a voz do coração.
A cada
aniverso, a cada troca de verso, temos uma linha em branco que anseia pela
poesia da vida. O teu poema ao universo, assim como aguarda pelo teu próximo
verso, te dá a oportunidade de escrevê-lo... Inspira-te!
Hoje é meu aniversário. Hoje aniverso. Hoje converso comigo a fim de começar a escrever o próximo verso do meu poema ao universo. Não me preocupo muito com rima, ou com a norma culta, gramática, semântica, ortografia, ou reforma ortográfica. Tampouco me esmero a procurar metáforas inéditas, rimas raras, estilo. Repito termos, emprego-os ou os desemprego sem aviso prévio. Apenas escrevo de peito aberto a poesia do meu coração e a poesia que meus olhos veem no mundo ou gostariam de ver.
Que meu próximo verso contenha a poesia que não se contém e a inspiração que não se doma. A mim mesmo, feliz aniversário!
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p.60-61)





