NADA É POR ACASO II (BASEADO EM FATOS REAIS)
No início deste ano, o Prof.º Gabriel,
professor de História de um renomado colégio particular de sua cidade, foi à
primeira reunião com os pais dos alunos. Chegando ao
amplo-e-lustroso-e-acolchoado salão de convenções, esmerou-se para alcançar
vista a seus colegas-amigos. Não os encontrou. Não haviam ido à reunião. Apenas
colegas mais distantes, menos achegados, estavam presentes. Eram, em sua
maioria, professoras mais sisudas e conservadoras, menos dadas às brincadeiras
extrovertidas do professor, às quais, inclusive, já haviam feito reprimendas ao
pé do ouvido da Direção.
O Gabriel era muito
jovem, há pouco formado, cheio de ideias, de alternativas pedagógicas joviais,
carismático, brincalhão... Seu dinamismo fisgava a atenção dos alunos.
Piadista, vivia a importunar seus colegas, inclusive às mais senhoras,
propositadamente, pois folgava em vê-las incomodadas com sua alegria e
disposição – com exceções, é claro, pois idade não é sinônimo de amargor. Não
debruçava os minutos de recreio sobre futilidades, ou em reportagens queixosas
de experiências pedagógicas ou de vida frustradas, ou nas preocupações com a
carga horária e a vida alheia. Agradava-lhe mais conversar sobre filosofia,
arte, política e história com seus achegados, sempre com notas de ironia e
humor.
Naquela
reunião, o clã das colegas senhoras e sisudas se encontrava bem vestido além do
costumeiro. O Gabriel, recolhido, apenas observava: o tamanho dos saltos não
rimava com o peso da idade; o rouge dos batons e os tons arcoirísticos das
sombras não atenuavam o siso das faces; as saias e os decotes não condiziam com
o moralismo pregado por elas no colégio. Logo lembrou de sua colega e amiga, a
Carlinha, professora de Literatura, que sempre reparava nas vestes não
adequadas daquelas senhoras... Ela iria se divertir ao presenciar tal
desfile... Lembrou também do Gérson e do Luís Antônio, professores de Filosofia
e de Artes, sarcásticos e tenazes em seus comentários ácidos sobre as nubladas
e pouco receptivas senhoras. Sim, o Gabriel e seu grupo de amigos, todos
novatos na escola, não gozavam das boas-vindas das amargas veteranas. Lamentou
mais uma vez a ausência de seus amigos, mas logo sua atenção foi chamada para
uma outra situação.
Um casal de
pais se encontrava meio escanteado. Um casal preocupado com seu filho. O Prof.º
Gabriel atentou mais um instante e reconheceu o menino, filho do casal, que
havia ido junto à reunião. Era o Alexandre, menino muito querido, mas um tanto
desestimulado, de aparência não tão bem apresentada quanto os demais alunos,
assim como seus pais não aparentavam ter o mesmo poder aquisitivo – ou a mesma
preocupação em parecer ter elevado poder aquisitivo – que os pais dos demais
alunos. O professor, então, incomodado com a situação, foi até o casal e o
menino para conversar.
Ficou sabendo,
para sua grata surpresa, que as aulas das quais o menino mais gostava eram as
suas. O Alexandre gostava muito de ler. Ele participava de um projeto de
música, tocava flauta transversa na banda do colégio, mas como havia repetido
de ano, fora cortado do projeto. Conversa vai e conversa vem, o professor
procurou encontrar várias maneiras de estimular o aluno a estudar, a aprender
sobre o mundo, a ler sobre música, arte, história, a procurar material de
suporte como partituras para seu instrumento, livros sobre flauta transversa e
história da música, biografia de grandes flautistas, grandes artistas, grandes
homens, tentando demonstrar ao Alexandre que todo sonho existe em nós porque é
um desejo nosso, e assim sendo, precisamos ir atrás deles para nos sentirmos
felizes, no caminho certo. Os olhos do menino rebrilharam. A reunião terminou
tão rapidamente quanto um piscar de olhos, e professores, pais e alunos foram
para suas casas e suas vidas, mas o Prof.º Gabriel, o menino Alexandre e seus
pais saíram da reunião com aquela sensação boa de ânimo renovado e vontade de
viver que dá na gente sempre que encontramos pessoas boas que nos transformam,
nos revitalizam.
Semana
passada, o Prof.º Gabriel foi à Faculdade de História da cidade vizinha, onde
havia passado no concurso para Professor Substituto, a fim de pleitear com o
Vice-Diretor uma declaração de não-colisão de horários, já que gostaria de
manter suas 20 horas no colégio particular ao assumir as 40 horas na faculdade.
Era uma tarefa complicada, o acerto dos horários e a consequente liberação da
declaração, já que o Gabriel morava numa cidade, trabalhava no colégio
particular numa segunda e a faculdade era numa terceira. Para sua grata
surpresa, o Vice-Diretor era o pai do menino Alexandre, o seu aluno do colégio.
Apesar do profissionalismo inerente ao cargo, o senhor fez grande esforço para
ajustar a situação e ajudar o Gabriel.
O Prof.º
Gabriel, de posse da declaração tão importante após o reencontro com o pai do
Alexandre, descendo as escadas da faculdade onde começaria em poucos dias a
trabalhar, sentiu mais uma vez aquela sensação boa de ânimo renovado e de
vontade de viver, e lembrou para si mesmo o quão bom é ser uma pessoa boa,
deixar as pessoas com um sorriso e tratá-las com carinho. Ainda que o clã das
senhoras e sisudas colegas no colégio não entendam suas brincadeiras e bom
humor, ele não se deixará esmorecer. Agora ele tem certeza de que está no
caminho certo, rumo a seus sonhos, e que a recompensa vem uma hora ou outra
através do merecimento. Afinal, nada é por acaso...
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 50-53)