quarta-feira, 29 de março de 2023

O amor durante a espera - Crônicas afônicas (2014)

AMOR DURANTE A ESPERA

 

amor, durante a espera, debruça-se na janela com o olhar apaixonado a redesenhar a paisagem para tornar-se parte dela. Imagina-se de mãos dadas a passear pelas veredas verdejantes em busca de morangos silvestres, num abraço a contemplar o amanhecer – sim, o amor amanhece –, num beijo a degustar açucarado néctar – sim, o amor floresce –, em carícias a sonhar sob o céu estrelado – sim, o amor adormece, e faz planos.

O amor, durante a espera, suspira na noite vazia de modo a preenchê-la: o amor não suporta a solidão, nem mesmo a solidão a dois. O amor é um poeta a desnudar estrelas distraídas para vestir-se de poesia.

O amor, durante a espera, contempla o sol nascente: na luz de cada amanhecer, o amor faz-se presente. O amanhecer de um amor é o mais lindo dos arrebóis.

O amor, durante a espera, abraça a própria sombra: o amor é, ao mesmo tempo, a luz, o corpo e a sombra. Sua luz o ilumina e projeta sua sombra, uma sombra de dois, de dois corpos. Não há dois corpos sem luz e sombra, nem sombra de dois corpos sem luz, ou luz sem sombra de dois corpos.

O amor, durante a espera, percebe a janela insistindo que o tempo não para, mas logo se distrai em romantismo. Pessoas sem rosto caminhando lá fora... Por que, na janela da minha vida, você não passa e acena?

O ruído da rua invadindo o silêncio não é suficiente para abafar as batidas do meu coração... O sol da manhã e o vento passeiam, mas se você não passa, não tem graça... Por que, na janela da minha, você não passa e me chama?

O amor, durante a espera, é o tempo passando só do lado de fora, é olhar ao redor e não enxergar nada, é perguntar ao silêncio e esperar resposta, é prender a si mesmo e jogar a chave fora.

Por que, na janela da minha vida, você não passa e acena? Por que, na janela da minha vida, você não passa e me chama?

(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 62-63)




quinta-feira, 23 de março de 2023

Desencanto - Crônicas afônicas (2014)

DESENCANTO

 

Era a Época de Ouro dos circos. Companhias circenses percorriam cidades, estados, países, encantando a homens, mulheres e crianças com sua magia e novidade. Havia atrações de toda espécie e de toda parte, números famosos e surpresas extraordinárias ao público, animais exóticos, trapezistas, malabares, corda-bamba, palhaços e cantores-palhaços.

Alfredo era cantor, um cantor-palhaço que como tantos da época usava o picadeiro como palco, visando ser conhecido pessoalmente pelo público e também galgando uma boa fonte de renda. Ele já se havia aventurado pelas rádios em São Paulo, mas o brilho do prestígio e da glória circense e o dinheiro e o sucesso o levaram a seguir o rumo dos circos pelo interior do Brasil.

Alfredo era muito talentoso. Deus lhe havia presenteado com o dom do canto para encantar multidões. Sua voz potente intimidava, ao passo que a suavidade de sua interpretação enchia ouvidos e corações de ternura. No entanto, assim como cada provação que Deus nos impõe é um teste para nossa alma, cada presente d’Ele também o é... Alfredo cegara ante o verniz da fama, e já não via nada ao seu redor que lhe importasse que não fosse o seu sucesso e o dinheiro...

Nos bastidores, longe da plateia, Alfredo tinha amigos, parceiros musicais que lhe ajudavam das mais variadas formas. Escreviam-lhe canções, oportunizavam-lhe o contato com outros artistas, emprestavam-lhe sua arte, e muitas vezes até mesmo lhe presenteavam canções para que ele tomasse para si a autoria das mesmas. Além disso, devotavam a ele amizade sincera e leal. Um deles, Camilo, filho de João – o maior parceiro de Alfredo –, era um jovem mais esforçado que talentoso mas, ainda assim, era uma criatura boa e um bom artista. Não tinha a voz de Alfredo, nem o verso de seu pai João, mas era um rapaz sensível, criativo e profundo em suas cançonetas.

Acontece que um dia, sem aviso prévio e explicação, Alfredo decidiu trocar de circo. Uma das canções de João, em parceria presenteada com Alfredo, fez um sucesso tremendo e levou o cantor a uma ganância extrema que, por conveniência econômica, inclinou João a negar a seu filho Camilo a oportunidade de mudar também para um circo maior e melhor. Alfredo e João, ainda que o último se sentisse um pouco arrependido, seguiram viagem e deixaram o jovem para trás, naquele circo já sem brilho que prendesse Alfredo.

O tempo passa, o mundo dá voltas, Alfredo e João retornam ao convívio de Camilo que, renitente, apesar das novas parcerias musicais entre os três, passa a ter sempre um pé atrás com seus parceiros. Por que haviam lhe deixado? Sua arte não era suficientemente bela ou funcional? Ou apenas não se enquadrava às expectativas dos seus parceiros quanto ao seu trato a colegas ou superiores?

Camilo era extremamente simples, avesso a tratar seus colegas e superiores com falsas e envernizadas palavras, sorrisos de plástico e atitudes demasiado servis. Mas era feliz em sua simplicidade, ao passo que Alfredo, envolvido por nuvens de egoísmo e ambição, longe de seu teatro-da-vida-real que representava no palco e nos bastidores, era amargo e infeliz.

O tempo passa, o mundo dá voltas, e a história se repete: mais uma vez Alfredo tolhe Camilo em nova promissora empreitada musical; mais uma vez o pai João se omite, em nome da amizade e lealdade que ainda vê, não se sabe como, em Alfredo.

À noite, em sua cama de feno, com as botas sujas de casca de arroz e de barro do chão do circo, cansado do trabalho e da vida, Camilo reflete. Ilusão ou realidade, ele sai de si, não é mais ele, e então olha para si deitado na cama e percebe que, às vezes, um pouco de desencanto é bom. Só o desencanto é capaz de nos revelar o que há por trás da ilusão. A ilusão é uma máscara que nós mesmos colocamos na face da realidade, quando não a queremos ver. O iludido não consegue ver o mundo em que vive, nem a si mesmo. O desiludido, apesar do amargor da desilusão, sabe onde pisa, sabe com quem lida. Apesar de ser difícil para um artista – que faz do encanto sua matéria-prima – lidar com o desencanto, Camilo haverá de aprender. E isto haverá de fazê-lo crescer como homem e como artista, pois, desencantado, é mais fácil buscar-se o encanto verdadeiro.

(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 56-58)



 

sábado, 18 de março de 2023

Trabalho de mãe - Crônicas afônicas (2014)

TRABALHO DE MÃE

A tua mãe, na escola vera da vida, é dos filhos a educadora; escreve com o giz do conselho na lousa do tempo; é regente de classe e de lar com sua batuta de condão. Seu instinto maternal não difere alunos e filhos: são da mesma família.

A tua mãe é o esteio da cidade; cuida da terra e de todos lá fora. Lavora na lavoura: majestade e seu reino. Planta sementes de carinho; rega, aduba, poda, cuida. Sabe dos ventos, das chuvas, dos temporais, e dos dias de sol como ninguém. Sua colheita é sempre farta, pois cuida das plantas como filhos e vice-versa.

A tua mãe é a rainha do lar. Seu trabalho é ficar perto; olhar nutrir e educar dos seus com carinho e afeto. Luta e labuta o dia inteiro todos os dias: é um exército de uma mulher só. Suas armas? Garra e coração.

A tua mãe entrega num instante as encomendas, mesmo aquilo que não há em vendas, como carinho confortante, ou amor sem reprimendas... O comércio do Carinho de Mãe não respeita as regras do capitalismo: nada do que se vende tem um preço, nada que se compra requer dinheiro... É um dar e receber mútuo onde o interesse de um é o bem-estar do outro.

A tua mãe é a tua guia cuidosa. De natureza protetora, acolhe debaixo de suas asas aos seus, mesmo que distantes estejam. Sua presença onipresente pressente cada passo em falso, cada deslize. Seu ninho está sempre preparado para um pouso forçado de um passarinho arrependido de voar sem rumo...

A tua mãe, quando põe as doces mãos sobre aqueles que seus são, retira as amarguras do coração. Seus confeitos, feitos de amor, adoçam a tua boca e as tuas palavras. A tua mãe conhece todas as receitas das tuas guloseimas prediletas, e não as deixará faltar na tua vida...

Enquanto a tua mãe cirze a vida, cuida da família inteira: costura, com linha de conselheira, a toda ferida. Sua máquina de costura trabalha a todo pano. Para toda dor, ela conhece o remendo.

A tua mãe sabe de cor, e com alegria, o seu dever como senhora da sua casa e da sua família. Arranja... Enfeita... Magia de mãe.

Mãe trabalha com o amor. Carinho é a sua mão-de-obra e a sua matéria-prima. Mãe é uma operária de Deus, e trabalha diretamente com Ele: é através da Mãe que Deus dá a vida. Mãe dá a luz, ilumina. Mães são meio-anjo e meio-mulher; e apesar de alguns pecadilhos que porventura possam vir a cometer ao longo da vida, pois são meio-humanas, com certeza terão sido cometidos em nome do amor. Amor de Mãe, trabalho de Mãe...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 54-55)




quarta-feira, 15 de março de 2023

Nada é por acaso II (baseado em fatos reais) - Crônicas afônicas (2014)

NADA É POR ACASO II (BASEADO EM FATOS REAIS)

No início deste ano, o Prof.º Gabriel, professor de História de um renomado colégio particular de sua cidade, foi à primeira reunião com os pais dos alunos. Chegando ao amplo-e-lustroso-e-acolchoado salão de convenções, esmerou-se para alcançar vista a seus colegas-amigos. Não os encontrou. Não haviam ido à reunião. Apenas colegas mais distantes, menos achegados, estavam presentes. Eram, em sua maioria, professoras mais sisudas e conservadoras, menos dadas às brincadeiras extrovertidas do professor, às quais, inclusive, já haviam feito reprimendas ao pé do ouvido da Direção.

O Gabriel era muito jovem, há pouco formado, cheio de ideias, de alternativas pedagógicas joviais, carismático, brincalhão... Seu dinamismo fisgava a atenção dos alunos. Piadista, vivia a importunar seus colegas, inclusive às mais senhoras, propositadamente, pois folgava em vê-las incomodadas com sua alegria e disposição – com exceções, é claro, pois idade não é sinônimo de amargor. Não debruçava os minutos de recreio sobre futilidades, ou em reportagens queixosas de experiências pedagógicas ou de vida frustradas, ou nas preocupações com a carga horária e a vida alheia. Agradava-lhe mais conversar sobre filosofia, arte, política e história com seus achegados, sempre com notas de ironia e humor.

Naquela reunião, o clã das colegas senhoras e sisudas se encontrava bem vestido além do costumeiro. O Gabriel, recolhido, apenas observava: o tamanho dos saltos não rimava com o peso da idade; o rouge dos batons e os tons arcoirísticos das sombras não atenuavam o siso das faces; as saias e os decotes não condiziam com o moralismo pregado por elas no colégio. Logo lembrou de sua colega e amiga, a Carlinha, professora de Literatura, que sempre reparava nas vestes não adequadas daquelas senhoras... Ela iria se divertir ao presenciar tal desfile... Lembrou também do Gérson e do Luís Antônio, professores de Filosofia e de Artes, sarcásticos e tenazes em seus comentários ácidos sobre as nubladas e pouco receptivas senhoras. Sim, o Gabriel e seu grupo de amigos, todos novatos na escola, não gozavam das boas-vindas das amargas veteranas. Lamentou mais uma vez a ausência de seus amigos, mas logo sua atenção foi chamada para uma outra situação.

Um casal de pais se encontrava meio escanteado. Um casal preocupado com seu filho. O Prof.º Gabriel atentou mais um instante e reconheceu o menino, filho do casal, que havia ido junto à reunião. Era o Alexandre, menino muito querido, mas um tanto desestimulado, de aparência não tão bem apresentada quanto os demais alunos, assim como seus pais não aparentavam ter o mesmo poder aquisitivo – ou a mesma preocupação em parecer ter elevado poder aquisitivo – que os pais dos demais alunos. O professor, então, incomodado com a situação, foi até o casal e o menino para conversar.

Ficou sabendo, para sua grata surpresa, que as aulas das quais o menino mais gostava eram as suas. O Alexandre gostava muito de ler. Ele participava de um projeto de música, tocava flauta transversa na banda do colégio, mas como havia repetido de ano, fora cortado do projeto. Conversa vai e conversa vem, o professor procurou encontrar várias maneiras de estimular o aluno a estudar, a aprender sobre o mundo, a ler sobre música, arte, história, a procurar material de suporte como partituras para seu instrumento, livros sobre flauta transversa e história da música, biografia de grandes flautistas, grandes artistas, grandes homens, tentando demonstrar ao Alexandre que todo sonho existe em nós porque é um desejo nosso, e assim sendo, precisamos ir atrás deles para nos sentirmos felizes, no caminho certo. Os olhos do menino rebrilharam. A reunião terminou tão rapidamente quanto um piscar de olhos, e professores, pais e alunos foram para suas casas e suas vidas, mas o Prof.º Gabriel, o menino Alexandre e seus pais saíram da reunião com aquela sensação boa de ânimo renovado e vontade de viver que dá na gente sempre que encontramos pessoas boas que nos transformam, nos revitalizam.

Semana passada, o Prof.º Gabriel foi à Faculdade de História da cidade vizinha, onde havia passado no concurso para Professor Substituto, a fim de pleitear com o Vice-Diretor uma declaração de não-colisão de horários, já que gostaria de manter suas 20 horas no colégio particular ao assumir as 40 horas na faculdade. Era uma tarefa complicada, o acerto dos horários e a consequente liberação da declaração, já que o Gabriel morava numa cidade, trabalhava no colégio particular numa segunda e a faculdade era numa terceira. Para sua grata surpresa, o Vice-Diretor era o pai do menino Alexandre, o seu aluno do colégio. Apesar do profissionalismo inerente ao cargo, o senhor fez grande esforço para ajustar a situação e ajudar o Gabriel.

O Prof.º Gabriel, de posse da declaração tão importante após o reencontro com o pai do Alexandre, descendo as escadas da faculdade onde começaria em poucos dias a trabalhar, sentiu mais uma vez aquela sensação boa de ânimo renovado e de vontade de viver, e lembrou para si mesmo o quão bom é ser uma pessoa boa, deixar as pessoas com um sorriso e tratá-las com carinho. Ainda que o clã das senhoras e sisudas colegas no colégio não entendam suas brincadeiras e bom humor, ele não se deixará esmorecer. Agora ele tem certeza de que está no caminho certo, rumo a seus sonhos, e que a recompensa vem uma hora ou outra através do merecimento. Afinal, nada é por acaso...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 50-53)




sábado, 11 de março de 2023

Mais uma de amor - Crônicas afônicas (2014)

MAIS UMA DE AMOR

Suave o toque luzidio das minhas mãos a desnudar tuas planícies, assim como o dia desposa a noite... Olho-me nos açudes do teu olhar profundo e cristalino a refletir o sol; percorro a geografia das tuas colinas como a brisa mansa do amanhecer; meus dedos fazem teus cabelos dançar levemente, como o vento a brincar com as árvores na mata e seus pássaros a anunciar a aurora deste amor; exploro vales, veredas, canhadas, cada relevo...

Roubo o mel dos teus beijos como uma pequena abelha em teus jardins que exalam o aroma da paixão; te sussurro juras ao pé do ouvido feito o murmurar de um riacho; degusto os frutos do teu pomar; me afogo em teus afagos...

Já é dia, e a imensidão do amor excede o alcance da visão. Tão vastos campo e céu que o romance amanhece o dia a perder-se de vista... Lá no horizonte, já não se define o que é um ou outro: chegando-se lá, nada mais há do que outro horizonte distante... O amor é incomensurável, e infinito.

O amor é a paisagem que se vê da janela, onde, ao olhar do coração, os amantes, terra e céu, são uma só coisa. Dois amantes são um só ser, um dentro do outro. Dois amantes são o amor. Mesmo num amor não correspondido, dentro do coração do amador vive a pessoa amada. Mesmo para quem fecha as cortinas, o amor amanhece lá fora. O amor é o dia amanhecendo: não há como evitar.

Em nossas vidas, existem amanheceres, dias de sol a pino, verões escaldantes de quarenta graus, entardeceres, anoiteceres, eclipses, meses de escuridão, invernos rigorosos, até vida sem sol. E assim como o clima é contingente, o amor também o é... Nunca se sabe o que o amor nos reserva... A meteorologia do amor é impossível. Não há satélites. Não há previsão.

Resta-nos viver. Resta-nos amar. E estarmos preparados para as quatro estações.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 48-49)




terça-feira, 7 de março de 2023

Para nossa alegria - Crônicas afônicas (2014)

 PARA NOSSA ALEGRIA

Nos galhos secos desta crônica, para nossa alegria, florescerão apenas coisas boas. Não florescerão nosso extrato da conta corrente ‘no vermelho’, nem nosso salário achatado. Tampouco florescerão o financiamento do carro, o rancho do mês, as contas de água e de luz, ou a “fratura” do cartão de crédito. Não florescerão os problemas cotidianos, as preocupações com a filha ou filho ‘aborrescente’, a pressão dos pais por estudo ou trabalho, as dúvidas sobre sexo, ou as perguntas inoportunas dos avós. Não florescerão, também, as dificuldades nos relacionamentos, a falta de tempo para namorar, as discussões de relação, os desentendimentos com os parentes. Não florescerão, ainda, o engarrafamento e a poluição, o atraso para o trabalho, o chefe impertinente, as notícias de acidentes no trânsito, casos de pedofilia, estupros, assaltos, assassinatos, reportagens sensacionalistas. Bem como não florescerão dízimos, lavagem cerebral, vendas e mordaças, algemas e grades. E não florescerão o aquecimento global, a crise financeira, a política e a violência. Não florescerão ervas daninhas. Florescerão apenas flores.

Florescerão amanheceres nas colinas verdes encobertas pelo véu da bruma leve e pores de sol róseos e lilases refletidos no dorso branco das nuvens calmas aos quais não damos atenção. Florescerão um teto bordado de infinitas estrelas faceiras e um sopro de brisa fresca que nos acenam e não notamos. Florescerão a poesia da vida que nossos olhos evitam ler, as palavras doces que nossos ouvidos amargurados não sentem o sabor, o calor fraterno dos abraços dos quais fugimos mesmo estando com frio, o perfume de um amor a desabrochar que não alcança nosso olfato.

Enquanto a vida floresce no nosso jardim, tendemos a descuidar das flores. Não as regamos. Não as adubamos. Não percebemos suas cores, seu viço, seu lume, sua música, seu aroma, seu frescor, seu florescer. Não somos bons jardineiros. Podamos as flores e deixamos crescer as ervas daninhas.

Olhemos mais para nosso jardim interior. Nossa vida atribulada pouco nos permite, mas o simples tentar perceber nos enobrece. Se nos determos apenas com o ‘lá fora’, quem vai cuidar das flores?

(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 46-47)




sábado, 4 de março de 2023

Protesto contra a morte - Crônicas afônicas (2014)

PROTESTO CONTRA A MORTE

Todo artista, de certa forma, é rival de Deus. Deus é o Criador, e o homem, a criatura. Porém, enquanto artista, o homem rivaliza com Ele ao ousar também criar.

Existem muitos artistas, e muitas artes. Existem os artistas da palavra, que se autoproclamam agentes da Divina Providência e rabiscam os destinos de suas criaturas, ou até mesmo dão vazão a mundos e formas de vida estranhas à Criação. Existem os artistas do som, empenhados em inventar maneiras musicais de traduzir sua alma e o mundo. Existem os artistas da tinta, que regem arrebóis e vislumbram paisagens não criadas por Ele. Existem os artistas artesãos, que inventam e fabricam instrumentos musicais, cores para a palheta, tecnologia para a fotografia e o cinema, material e ferramentas para a escultura, movimentos para a dança... E também existem os artistas da vida, que criam e recriam maneiras de amar, de pedir um favor, de mentir, de perdoar, de invejar, de roubar, de levar a vida, de viver, de matar, de ressuscitar... Todos nós somos artistas. Todos nós somos rivais de Deus.

O homem vive tentando superar Deus: controlar a natureza, explorar o universo, curar doenças, ter o controle sobre o seu destino e o dos demais, vida in vitro, clonagem, filhos sem pai nem mãe. Criatura x Criador.

No entanto, Deus tem a Sua garantia: a morte. A morte é a garantia que Deus tem sobre nós, mortais, de que nunca o superaremos. Por mais genial que seja o artista, mais cedo ou mais tarde ele perecerá.

A única maneira que o artista tem de protestar contra a morte é a sua obra. Somente ela será capaz de prolongar sua vida e, talvez, de imortalizá-lo. Sua obra pode ser uma ideia, uma lâmpada, uma obra de arte, sua própria vida, a vida do seu filho, um gesto, uma decisão. Por vezes, a obra omite o nome do artista, mas influencia gerações. Um beijo pode mudar o rumo de uma nação. Uma palavra pode salvar vidas e seus futuros filhos, netos, bisnetos... A única maneira que temos de protestar contra a morte é viver, e viver de maneira a prolongar nossa vida por meio da perenidade da nossa obra.

Por isso, eu protesto contra a morte! E te convido a protestar também! E nossas vidas serão nossa obra a perdurar nossa existência...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 44-45)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...