CAFÉ PASSADO
Demorei muito para dormir, mas agora
consegui e, de repente, vi-me aqui, guardando o seu sono. Você não me vê, mas
me sente quando acaricio o seu rosto nessas visitas noturnas que lhe faço
enquanto durmo.
Minhas mãos
luzidias deixam transparecer sua pele enquanto lhe toco a alva face envolta em
brumas róseas e celestes do alvorecer que já não tarda. Lágrimas alaranjadas de
luz do sol descaem das frestas da janela prenunciando o dia que nasce e o amor
que se põe ao passo que começo a despertar, a abandonar seu leito onde lhe
velava.
Aos poucos
minha alma retorna ao corpo, entorpecido de sua ausência. Enquanto desperto,
ainda posso sentir o calor do seu rosto nos meus dedos e o torpor do seu
perfume dançando a enlevar-me. Mas à medida que a consciência vai recobrando a
si, fica mais difícil desvelar o emaranhado de sensações impregnadas à essência
do espírito, deixando-se apenas adivinhar pelo brilho do olhar, ainda um pouco sonolento.
Xícaras de
café, água no rosto, claridade, ardis que a alma finge aceitar como verossímeis
para devolver ao corpo os reflexos e os sentidos necessários ao dia. No entanto,
nos recônditos, o pano de fundo dos pensamentos me sussurra o seu nome em meio
à névoa do cotidiano.
As imagens que
a alma contempla em sonhos ela guarda em nós de forma insondável, mas inegável.
Não percebemos que nosso inconsciente é nossa alma, consciente, a guiar-nos,
sob o codinome do acaso.
Temos um
inconsciente vivo dentro de nós. Escuta?!
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 108-109)

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