segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Café passado - Crônicas afônicas (2014)

CAFÉ PASSADO 

Demorei muito para dormir, mas agora consegui e, de repente, vi-me aqui, guardando o seu sono. Você não me vê, mas me sente quando acaricio o seu rosto nessas visitas noturnas que lhe faço enquanto durmo.

Minhas mãos luzidias deixam transparecer sua pele enquanto lhe toco a alva face envolta em brumas róseas e celestes do alvorecer que já não tarda. Lágrimas alaranjadas de luz do sol descaem das frestas da janela prenunciando o dia que nasce e o amor que se põe ao passo que começo a despertar, a abandonar seu leito onde lhe velava.

Aos poucos minha alma retorna ao corpo, entorpecido de sua ausência. Enquanto desperto, ainda posso sentir o calor do seu rosto nos meus dedos e o torpor do seu perfume dançando a enlevar-me. Mas à medida que a consciência vai recobrando a si, fica mais difícil desvelar o emaranhado de sensações impregnadas à essência do espírito, deixando-se apenas adivinhar pelo brilho do olhar, ainda um pouco sonolento.

Xícaras de café, água no rosto, claridade, ardis que a alma finge aceitar como verossímeis para devolver ao corpo os reflexos e os sentidos necessários ao dia. No entanto, nos recônditos, o pano de fundo dos pensamentos me sussurra o seu nome em meio à névoa do cotidiano.

As imagens que a alma contempla em sonhos ela guarda em nós de forma insondável, mas inegável. Não percebemos que nosso inconsciente é nossa alma, consciente, a guiar-nos, sob o codinome do acaso.

Temos um inconsciente vivo dentro de nós. Escuta?!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 108-109)




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