quinta-feira, 21 de setembro de 2023

"Abrir os olhos" - Crônicas afônicas (2014)

"ABRIR OS OLHOS”

 

Uma espera larga gravita na sala, expande-se de parede a parede embora as conversas e o arrastar de classes e cadeiras intentem roubar-lhe espaço. Nota-se um olhar vagueante, como a percorrer toda a extensão da esperança que paira. E eis que o ar se dissipa de rompante, causando um estrondo apenas ouvido por quem esperava, espécie de excitação que a chegada de quem se espera provoca no espectador, Chegou o professor, exclamou o aluno a si mesmo novamente, Chegou o professor.

Figura alta, gigantesca ao olhar do franzino aluno de dez anos, era o imponente professor de ombros largos que um abraço assombraria, de mãos grandes que num aperto de mão caberia o mundo. Quando se tem pouca idade, as pessoas adultas e as coisas parecem imensas, pessoas de estatura avantajada são gigantes olhados de baixo, a escola, um vasto palácio com seus labirínticos corredores e salas insondáveis. Depois que se cresce, e cresce também a visão de mundo, percebe-se quão pequeno se era, tanto num tamanho quanto noutro, para deixar-se enganar assim pelas dimensões. Mas o professor tinha a habilidade de apequenar-se a cada abraço que estendia aos pequeninos que se lhe abriam os braços, a cada suave aperto de mão que oferecia aluno por aluno poucos instantes depois de adentrar à sala de aula, bem como mais parecia um coleguinha de classe quando explicava o conteúdo no dialeto infantil.

Professor àquela aula fê-la inesquecível, não somente para o saudoso aluninho, a classe toda jamais a esqueceu. A turminha ainda estava agitada, a aula era depois do recreio, e Professor abraçou quem lhe queria abraçar, cumprimentou aos alunos um a um, estendendo-lhes uma das enormes mãos, como de costume, mas a seguir apenas se sentou contemplativo, em silêncio. Seu sorriso era curto, mas profundo, misterioso, mas revelador, mudo, mas falava tudo. Aos poucos, os alunos foram se acalmando, se aquietando, se deixando experimentar o silêncio que Professor falava. Quando a turma toda se calou, paralisada e ansiosa pelas primeiras palavras, o aluno da espera larga não se conteve e indagou Professor, Tu não vai falar nada. Professor lhe respondeu, a ele e à turma, Mas eu já tô falando desde que eu entrei na sala, e o disse sem alterar expressão. Os alunos se olharam, ainda sem compreender aquelas palavras, quando Professor prosseguiu, Hoje a aula é sobre o silêncio. O mesmo aluno da primeira pergunta, já impaciente, alegou, Mas o silêncio não é nada. Não é não, sentenciou Professor, e propôs, Eu quero que vocês fiquem quietinhos por cinco minutos, eu vô contar no relógio hein, e depois a gente conversa. Os alunos, ainda muito novinhos para tal, não conseguiam chegar ao entendimento de como aquilo viria a ser uma aula, O professor tá loco, pensaram alguns, mas fizeram o que Professor pediu, ficaram em silêncio, olhando para todos os lados, rindo-se sem saber do quê.

Passados os cinco minutos combinados, quando Professor fez sinal, ora, veja-se, o mesmo inquieto aluno, aliviado, perguntou em voz alta, mais por aflição de passar tanto tempo sem falar do que por outro motivo, E agora professor. E Professor, Eu é que pergunto pra vocês, o que vocês aprenderam. A turma ficou ainda mais desconcertada, e muitos alegaram, Nada, né sor. Professor seguiu, emendando perguntas, Vocês tem certeza, vocês não viram nada, vocês não ouviram nada. Uma inafastável excitação de descoberta atingiu todos os diminutos corações, corando-lhes a tenra pele da cútis, e se puseram a falar desorganizadamente, cada qual intentando ser o primeiro atendido. Professor permaneceu em silêncio, à espera do mesmo a sala de aula, até que o aluno inquieto se aquietou e, como num sinal disto, levantou a mão para pedir vez. Professor atendeu, Silêncio meus queridos, ele vai falar primeiro. E o aluno disse, Eu vi os teus olhos de cansado, professor, tu tá cansado né. Obrigado por perguntar, disse Professor, ninguém tinha me perguntado isso hoje. O aluno entendeu que através daquele silêncio havia pela primeira vez reparado no semblante cansado do querido professor, e que o professor se alegrava pela sua preocupação, com certeza este aluno tentará reparar mais nos semblantes dos seus queridos, a fim de adivinhar-lhes o estado. Depois, Professor passou a vez para uma menininha, que disse, Professor, eu ouvi um carro passando e um cachorro latindo, e o som dos dois começaram juntos, passaram juntos, e terminaram juntos, eu acho que era o meu pai de caminhonete com o meu cachorro em cima, ele sempre vai junto com o pai pro centro, na carroceria, com a cabecinha por cima do capô pra pegar bastante vento, tanto vento que as orelhinhas dele ficam bem pra trás e os olhinhos puxados, parece um japonês, hihihihi! E Professor, sorrindo, disse, Muito bem, querida. E assim se passaram os minutos, fartos de exemplos de sons que se começaram a perceber, expressões de rostos que se fizeram reparar, sorrisos a notar-se, aromas a achegar-se ao olfato, texturas a tatear-se às pontas dos dedinhos, cartazes temáticos de sala de aula a saltar-se e aos olhinhos, e muitos mais exemplos de percepção e sensibilidade suscitadas ludicamente pela atividade silenciosa do professor.

Ao fim, Professor arrematou, Dizem que o silêncio vale mais do que mil palavras; eu não sei se isso é verdade, mas eu sei que ele faz a gente “abrir os olhos”.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 112-115)




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