quarta-feira, 27 de setembro de 2023

"Fechar os olhos" - Crônicas afônicas (2014)

"FECHAR OS OLHOS”

 

Quando alguém passa por mim na rua e me pergunta as horas, e eu educadamente e sorridente respondo, e este alguém apenas segue seu caminho sombrio por entre os seus escuros, sem agradecer com palavra ou gesto ou expressão, eu fecho os olhos para ver a luz.

Quando alguém que me conhece me vira a cara na rua, em notória embriaguez de desdém, após alguns segundos sem chão, eu fecho os olhos para retomar o caminho.

Quando alguém se diz meu amigo e me apunhala pelas costas com suas mentiras e palavras envenenadas, com seu jogo moribundo de sorrisos plastificados e abraços ocos, eu fecho os olhos para cicatrizar as feridas.

Quando alguém me serve o cálice do ódio, desejoso por compartilhá-lo, de afetar-me com seu vício, de embriagar-me de cólera para cair em sua armadilha, eu fecho os olhos para manter a sobriedade.

Quando a inveja alheia bate à porta, intentando adentrar a casa sem pedir licença e levar consigo tudo de bom que há lá dentro, roubar-me meu trabalho e meus sonhos, eu fecho os olhos para não abrir a porta.

Quando o ciúme ameaça consumir-me por dentro, acenando possibilidades improváveis, remoendo o passado, acrescentando-lhe pitadas de suposições nocivas e de imagens daninhas, eu fecho os olhos para olhar o presente.

Fecho os olhos porque já os abri o suficiente para enxergar o que eu não queria ver, o que eu preferiria não saber. Fecho os olhos porque já perdi a ilusão de um mundo feito apenas de amor, amizade, companheirismo, cooperação, união, educação e outros sentimentos e atitudes boas. Porém, fecho os olhos também para manter o brilho no olhar, o pouco de encantamento que ainda me resta.

Como é bom encontrar uma pessoa extremamente agradável, ou educadíssima, ou muito culta, ou que esbanje simpatia sem ter segundas ou terceiras intenções. Mas a pequenez humana é maioria. E, como vivemos em uma democracia...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 116-117)




quinta-feira, 21 de setembro de 2023

"Abrir os olhos" - Crônicas afônicas (2014)

"ABRIR OS OLHOS”

 

Uma espera larga gravita na sala, expande-se de parede a parede embora as conversas e o arrastar de classes e cadeiras intentem roubar-lhe espaço. Nota-se um olhar vagueante, como a percorrer toda a extensão da esperança que paira. E eis que o ar se dissipa de rompante, causando um estrondo apenas ouvido por quem esperava, espécie de excitação que a chegada de quem se espera provoca no espectador, Chegou o professor, exclamou o aluno a si mesmo novamente, Chegou o professor.

Figura alta, gigantesca ao olhar do franzino aluno de dez anos, era o imponente professor de ombros largos que um abraço assombraria, de mãos grandes que num aperto de mão caberia o mundo. Quando se tem pouca idade, as pessoas adultas e as coisas parecem imensas, pessoas de estatura avantajada são gigantes olhados de baixo, a escola, um vasto palácio com seus labirínticos corredores e salas insondáveis. Depois que se cresce, e cresce também a visão de mundo, percebe-se quão pequeno se era, tanto num tamanho quanto noutro, para deixar-se enganar assim pelas dimensões. Mas o professor tinha a habilidade de apequenar-se a cada abraço que estendia aos pequeninos que se lhe abriam os braços, a cada suave aperto de mão que oferecia aluno por aluno poucos instantes depois de adentrar à sala de aula, bem como mais parecia um coleguinha de classe quando explicava o conteúdo no dialeto infantil.

Professor àquela aula fê-la inesquecível, não somente para o saudoso aluninho, a classe toda jamais a esqueceu. A turminha ainda estava agitada, a aula era depois do recreio, e Professor abraçou quem lhe queria abraçar, cumprimentou aos alunos um a um, estendendo-lhes uma das enormes mãos, como de costume, mas a seguir apenas se sentou contemplativo, em silêncio. Seu sorriso era curto, mas profundo, misterioso, mas revelador, mudo, mas falava tudo. Aos poucos, os alunos foram se acalmando, se aquietando, se deixando experimentar o silêncio que Professor falava. Quando a turma toda se calou, paralisada e ansiosa pelas primeiras palavras, o aluno da espera larga não se conteve e indagou Professor, Tu não vai falar nada. Professor lhe respondeu, a ele e à turma, Mas eu já tô falando desde que eu entrei na sala, e o disse sem alterar expressão. Os alunos se olharam, ainda sem compreender aquelas palavras, quando Professor prosseguiu, Hoje a aula é sobre o silêncio. O mesmo aluno da primeira pergunta, já impaciente, alegou, Mas o silêncio não é nada. Não é não, sentenciou Professor, e propôs, Eu quero que vocês fiquem quietinhos por cinco minutos, eu vô contar no relógio hein, e depois a gente conversa. Os alunos, ainda muito novinhos para tal, não conseguiam chegar ao entendimento de como aquilo viria a ser uma aula, O professor tá loco, pensaram alguns, mas fizeram o que Professor pediu, ficaram em silêncio, olhando para todos os lados, rindo-se sem saber do quê.

Passados os cinco minutos combinados, quando Professor fez sinal, ora, veja-se, o mesmo inquieto aluno, aliviado, perguntou em voz alta, mais por aflição de passar tanto tempo sem falar do que por outro motivo, E agora professor. E Professor, Eu é que pergunto pra vocês, o que vocês aprenderam. A turma ficou ainda mais desconcertada, e muitos alegaram, Nada, né sor. Professor seguiu, emendando perguntas, Vocês tem certeza, vocês não viram nada, vocês não ouviram nada. Uma inafastável excitação de descoberta atingiu todos os diminutos corações, corando-lhes a tenra pele da cútis, e se puseram a falar desorganizadamente, cada qual intentando ser o primeiro atendido. Professor permaneceu em silêncio, à espera do mesmo a sala de aula, até que o aluno inquieto se aquietou e, como num sinal disto, levantou a mão para pedir vez. Professor atendeu, Silêncio meus queridos, ele vai falar primeiro. E o aluno disse, Eu vi os teus olhos de cansado, professor, tu tá cansado né. Obrigado por perguntar, disse Professor, ninguém tinha me perguntado isso hoje. O aluno entendeu que através daquele silêncio havia pela primeira vez reparado no semblante cansado do querido professor, e que o professor se alegrava pela sua preocupação, com certeza este aluno tentará reparar mais nos semblantes dos seus queridos, a fim de adivinhar-lhes o estado. Depois, Professor passou a vez para uma menininha, que disse, Professor, eu ouvi um carro passando e um cachorro latindo, e o som dos dois começaram juntos, passaram juntos, e terminaram juntos, eu acho que era o meu pai de caminhonete com o meu cachorro em cima, ele sempre vai junto com o pai pro centro, na carroceria, com a cabecinha por cima do capô pra pegar bastante vento, tanto vento que as orelhinhas dele ficam bem pra trás e os olhinhos puxados, parece um japonês, hihihihi! E Professor, sorrindo, disse, Muito bem, querida. E assim se passaram os minutos, fartos de exemplos de sons que se começaram a perceber, expressões de rostos que se fizeram reparar, sorrisos a notar-se, aromas a achegar-se ao olfato, texturas a tatear-se às pontas dos dedinhos, cartazes temáticos de sala de aula a saltar-se e aos olhinhos, e muitos mais exemplos de percepção e sensibilidade suscitadas ludicamente pela atividade silenciosa do professor.

Ao fim, Professor arrematou, Dizem que o silêncio vale mais do que mil palavras; eu não sei se isso é verdade, mas eu sei que ele faz a gente “abrir os olhos”.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 112-115)




quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Escravos do passado - Crônicas afônicas (2014)

ESCRAVOS DO PASSADO

 

Foi numa gélida manhã de agosto, um agosto severo, a geada trincava o pasto e o negro apertava o passo, sumia na cerração... E, consigo, os pés descalços, castigados... Junto às correntes de aço levava, no seu encalço, as chagas da escravidão.

A manhã, na Casa Grande e resplandecente de austeridade e imponência, despertava espanto e alarde e os de coração débil e covarde davam início à caçada. Foge o negro, o animal... Sim! Tratavam-no como tal... – “Nasce pra ser serviçal, não tem alma, não tem nada”.

Na verdade, mero estratagema! O branco que impunha algemas, sem ter pudor nem pena, ante o escravo era inferior. Pois aquele que escraviza e que cativa é que não tem alma... a precisa! Não vale o chão onde pisa! Não honra o nome Senhor...

...E o Senhor da Sesmaria de crueldade sorria um sorriso canino, pois até o fim do dia teria sangue nas mãos... – “Se dentro das minhas terras algum negro desgraçado se desgarra, eu trago de volta é na marra, sob severa punição!”.

E, de fato, era um açoite... Por três dias e três noites, dê-lhe ferro quente e chicote e intermináveis torturas... E, mais cedo ou mais tarde, dependendo de sua sorte, encontrava-se com a morte a sofrida criatura.

E o negro bem sabia da soberba e tirania do Senhor da Sesmaria, da monarquia em seu trono de sangue e suor alheio. Num ato de valentia, que a coragem vale um homem, deu-se a própria alforria, naquela manhã tão fria quanto a alma do seu dono.

Escafedeu-se o vassalo e nenhum branco a pé ou a cavalo jamais conseguiu achá-lo na vastidão impenetrável da pampa... Dizem que, lá no rincão, os puros de coração, em manhãs de cerração inda veem sua estampa... Quanto à velha Sesmaria, da soberba e tirania, hoje é terra e moradia pros descendentes de escravos. E à família do Senhor, por semear tanto horror, não sobrou nenhum valor... Do passado são escravos!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 110-11)




segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Café passado - Crônicas afônicas (2014)

CAFÉ PASSADO 

Demorei muito para dormir, mas agora consegui e, de repente, vi-me aqui, guardando o seu sono. Você não me vê, mas me sente quando acaricio o seu rosto nessas visitas noturnas que lhe faço enquanto durmo.

Minhas mãos luzidias deixam transparecer sua pele enquanto lhe toco a alva face envolta em brumas róseas e celestes do alvorecer que já não tarda. Lágrimas alaranjadas de luz do sol descaem das frestas da janela prenunciando o dia que nasce e o amor que se põe ao passo que começo a despertar, a abandonar seu leito onde lhe velava.

Aos poucos minha alma retorna ao corpo, entorpecido de sua ausência. Enquanto desperto, ainda posso sentir o calor do seu rosto nos meus dedos e o torpor do seu perfume dançando a enlevar-me. Mas à medida que a consciência vai recobrando a si, fica mais difícil desvelar o emaranhado de sensações impregnadas à essência do espírito, deixando-se apenas adivinhar pelo brilho do olhar, ainda um pouco sonolento.

Xícaras de café, água no rosto, claridade, ardis que a alma finge aceitar como verossímeis para devolver ao corpo os reflexos e os sentidos necessários ao dia. No entanto, nos recônditos, o pano de fundo dos pensamentos me sussurra o seu nome em meio à névoa do cotidiano.

As imagens que a alma contempla em sonhos ela guarda em nós de forma insondável, mas inegável. Não percebemos que nosso inconsciente é nossa alma, consciente, a guiar-nos, sob o codinome do acaso.

Temos um inconsciente vivo dentro de nós. Escuta?!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 108-109)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...