segunda-feira, 4 de março de 2024

Uma manhã na praia - Crônicas afônicas (2014)

UMA MANHÃ NA PRAIA

 

O som das ondas da praia tem uma constância imperfeita em comparação com o tique-taque do relógio... talvez por isso o tempo lá seja mais maleável, mais fluido. No escritório, os segundos são implacáveis como a rotina. Na praia, o tempo se dilata, alonga-se na costa, apazigua-se na enseada.

O movimento das ondas é assimétrico, mas perfeito. Nenhuma outra coisa é capaz de mover-se em caos tão belo e ordenado. Nas ruas, o movimento em mão única se revela, por sua vez, feio e caótico. O homem se perde pelos caminhos que ele mesmo construiu, na desordem que ele mesmo ordenou. As ondas, alheias, sabem de cor seu caminho e sempre chegam à margem, belamente.

O brilho do sol também é impreciso e maravilhoso em seu pontilhar luzidio no dorso das ondas. Nem a joia mais cara saberia ser bela com a falta do cálculo, com a mão do acaso, com o sopro do improviso.

A vida é isto. Uma praia. Inconstante, imperfeita, assimétrica, imprecisa e imprevisível, porém, bela. Se não fosse o bicho-homem...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 136)




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...