UMA MANHÃ NA PRAIA
O som das ondas da
praia tem uma constância imperfeita em comparação com o tique-taque do relógio...
talvez por isso o tempo lá seja mais maleável, mais fluido. No escritório, os
segundos são implacáveis como a rotina. Na praia, o tempo se dilata, alonga-se
na costa, apazigua-se na enseada.
O movimento
das ondas é assimétrico, mas perfeito. Nenhuma outra coisa é capaz de mover-se
em caos tão belo e ordenado. Nas ruas, o movimento em mão única se revela, por
sua vez, feio e caótico. O homem se perde pelos caminhos que ele mesmo
construiu, na desordem que ele mesmo ordenou. As ondas, alheias, sabem de cor
seu caminho e sempre chegam à margem, belamente.
O brilho do
sol também é impreciso e maravilhoso em seu pontilhar luzidio no dorso das
ondas. Nem a joia mais cara saberia ser bela com a falta do cálculo, com a mão
do acaso, com o sopro do improviso.
A vida é isto.
Uma praia. Inconstante, imperfeita, assimétrica, imprecisa e imprevisível,
porém, bela. Se não fosse o bicho-homem...
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 136)

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