quinta-feira, 7 de março de 2024

Mistérios - Crônicas afônicas (2014)

MISTÉRIOS

 

O que há além da neblina que nos impede de enxergar mais de um metro de água mansa e serena ao redor do barco?

Que segredos se escondem detrás das máscaras que as pessoas usam cotidianamente?

O que nos aguarda dentro da escuridão da mata fechada, ruidosa e morna?

Que respostas se ocultam nas entrelinhas do que nos dizem a todo instante?

O que guarda o silêncio da casa vazia?

Que disfarces maquiam a verdadeira face do mundo?

O que nos reserva cada caminho da estrada que se bifurca?

Que sombras nos apagam o lume do olhar?

O que nos escapa por entre os dedos?

Que verniz é capaz de nos cegar e enganar?

O que luz acima das nuvens?

Que véus encobrem o derradeiro sentido da vida?

O que nos ensinam nossos desenganos?

Que magia jaz no amor?

O que habita o olhar que cativa, impenetrável?

Certos mistérios não foram feitos para serem desvendados, mas para que esta busca nos sirva de combustível para viver...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 138)




segunda-feira, 4 de março de 2024

Uma manhã na praia - Crônicas afônicas (2014)

UMA MANHÃ NA PRAIA

 

O som das ondas da praia tem uma constância imperfeita em comparação com o tique-taque do relógio... talvez por isso o tempo lá seja mais maleável, mais fluido. No escritório, os segundos são implacáveis como a rotina. Na praia, o tempo se dilata, alonga-se na costa, apazigua-se na enseada.

O movimento das ondas é assimétrico, mas perfeito. Nenhuma outra coisa é capaz de mover-se em caos tão belo e ordenado. Nas ruas, o movimento em mão única se revela, por sua vez, feio e caótico. O homem se perde pelos caminhos que ele mesmo construiu, na desordem que ele mesmo ordenou. As ondas, alheias, sabem de cor seu caminho e sempre chegam à margem, belamente.

O brilho do sol também é impreciso e maravilhoso em seu pontilhar luzidio no dorso das ondas. Nem a joia mais cara saberia ser bela com a falta do cálculo, com a mão do acaso, com o sopro do improviso.

A vida é isto. Uma praia. Inconstante, imperfeita, assimétrica, imprecisa e imprevisível, porém, bela. Se não fosse o bicho-homem...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 136)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...