quarta-feira, 12 de julho de 2023

Quando chove lá fora - Crônicas afônicas (2014)

QUANDO CHOVE LÁ FORA

 

Um trovão ressoa longe, com sua voz grave, num prenúncio de aguaceiro. Parece que o campo inteiro se aquieta, à espera. A brisa que soprava leve paralisa e o ar se amorna. As folhas das árvores param de dançar. As águas dos riachos correm mais lentas, caminham. O gado pasta calmamente, disfarçando que sabe do tempo. Em verdade, o campo sabe que não há como escapar e apenas se prepara. E nem quer escapar: o campo sempre está com sede, bebe da chuva.

Um raio se desprende do meio da tempestade, riscando o céu à ponta de espora e tinindo as cordas do alambrado ao pontear seu violão. O horizonte se emburra e a tarde mormacenta vai ganhando noite. O temporal chega à revelia de palma-benta ou cruz-de-sal. A oração do campo à espera da chuva é mais forte que as das casas onde se cobre o espelho da sala. A tormenta atormenta as casas, não o campo. A brisa, de paralisada, ganha asas e se torna vento forte. O ar amornado se agita e se refresca aos primeiros pingos. As folhas vibram de alegria e se banham, mandam a poeira embora. As águas dos riachos tomam corpo e volúpia. Os animais se abrigam do perigo, mas contemplam a bênção. O campo é uma prece, pela dádiva da água da chuva agradece. A aparente violência da natureza é entendida como pressa pelo campo. A água da chuva encharca a terra, alaga planuras, arrebenta taipas, transborda rios e abre outros nas coxilhas, estoura bueiros, leva por diante estradas, pontes, plantações, mas a água da chuva mata a sede do campo e da mata, verdeja pasto e folha, rega flor e erva, afresca fruto e broto, sacia fauna e flora, abastece açude e rio e entranhas da terra de onde a água rebrota nas cacimbas e verte nas vertentes. A água irriga sementes, germina a terra, louva a lavoura, garante o sustento, sustenta casa e galpão.

Quando chove lá fora, o campo se banha nos banhados, viaja pelos rios, bebe das sangas e açudes, goteja nas folhas das árvores, floresce nos jardins, amadurece nos frutos, se refresca na brisa, brinca de esconde-esconde pelas vertentes debaixo da terra... O campo lava a alma, quando chove lá fora.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 96-97)




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