terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Romance de pampa e sol - O livro dos espelhos (2011)

ROMANCE DE PAMPA E SOL

Despacito, o sol desnudava a pampa
com carícias tênues e luzidias
que pouco a pouco se tornavam amplas,
 
lhe trazendo matizes de alegria,
iluminando os campos deste amor
quando noite se transformava em dia.
 
Suspiros subiam ao céu: rubor
que à paixão denunciava a cada afago
que o sol imprimia à pampa, em calor,
 
e a noite fria com seu poncho amargo
ia dando lugar à pampa desnuda,
plena de todos amores do pago.
 
À luz do amor, o iluminado muda
sua tez que agora resplandece, brilha,
quando antes era opaca e sisuda
 
como as flores, que na noite das trilhas
se ocultam da visão do caminhante,
mas que ao sol, lhe acenam lá das coxilhas.
 
Assim, a pampa, em pele verdejante,
exalava dos poros seu perfume
enquanto o sol, mais e mais radiante,
 
estendia à sua amada tal lume
que, ao esmaecerem, as demais plagas
deste romance sentiam ciúme.
 
E o sol percorria as planuras largas,
se mirava vaidoso nos açudes,
roubava beijos da água das sangas,
 
e a pampa encantava aos homens mais rudes,
versejando amor em suave canção
soprada ao vento, que no céu se funde:
  
terra e céu, pampa e sol, agora são,
ao terno amanhecer que se faz dia,
um só ser, unido pela paixão;
 
e o romance ao longo das horas ia,
e o casal apaixonado se amava,
despercebido que o tempo esvaía...
 
Mas, na medida em que o tempo passava
– se ia sorrateiro, sem alarde –,
o romance ao final se aproximava,
 
porque enquanto o sol de amores arde,
esquece que seu fogo depois apaga
com o frio que impõe o cair da tarde.
 
O mesmo vento que ora o amor propaga,
agora sopra avesso a tal romance,
contentando a inveja das demais plagas;
 
e a pampa de luz, do amor que amanhece,
desposada pelo amante do céu,
se recolhe escura quando anoitece:
 
noite torna a vesti-la em negro véu,
cobrindo a vastidão ora ensolarada
que agora, prostrada, o lume perdeu;
 
sol gaudério pega o rumo da estrada,
deixando pra trás a diurna amante
– alvas lágrimas na quincha estrelada –.
 
Sangrado, o amor anuncia o poente
de um romance que fora ardente outrora,
descendo melancólico o horizonte.
 
Mas este rubor que se vê agora,
do amor fora atestado no amanhecer
e prenuncia que amanhã a aurora
 
fará, talvez, romance renascer
quando o lume do sol lumiar a pampa
e à sua pele carícias tecer,
 
percorrendo a geografia do campo,
sussurrando brisas ao pé do ouvido
enquanto aos poucos o dia se acampa.
 
E de terra e céu o amor desmedido,
que morre e renasce a cada arrebol,
assim, jamais quedará em olvido,
 
pois a cada nova manhã no sul,
reacenderá a chama do amor
num novo romance entre pampa e sol!

(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 91-93)




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