segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Preserva o elogio! - Crônicas afônicas (2014)

PRESERVA O ELOGIO! 

Como é bom receber um elogio! Não me refiro àquele que se dá por educação, muito menos àquele entregue sob a máscara da inveja. E elogio pela internet é virtual. Refiro-me ao elogio puro, ofertado ao elogiado com afeição, com admiração.

Num mundo onde a competição envenena colegas de trabalho, de sala de aula, e se infiltra até entre amigos ou dentro de uma família, elogiar o outro pode ser interpretado pelo próprio elogiador como um sinal de sua fraqueza, como se admirar um colega e expor isto demonstrasse sua inferioridade perante o elogiado.

Na canção Esperando por mim (1996), Renato Russo escreveu: "Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição". As pessoas do nosso tempo tendem a se fechar dentro de uma bolha – pode ser uma tentativa de se libertar do mundo real, mas acabam por se aprisionarem em seu próprio mundo. Da mesma canção: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão"...

O elogio aproxima as pessoas. Estoura as bolhas. É um sinal de amor. Amor ao próximo. Isto soa estranho? Se eu me pergunto por que, Renato Russo, novamente, me responde, e com sarcasmo: "Afinal, amar ao próximo é tão demodé" (Baader-Meinhof Blues - 1984).

Se amar ao próximo está fora de moda, quem nos ama? Somente nós mesmos? Alguns familiares, amigos? Isto é notadamente triste, enquanto poderíamos demonstrar amor, carinho, admiração a tantas pessoas. E estas a nós.

Ninguém é perfeito. E perfeição requer evolução. E para evoluir, precisamos preservar o elogio, uma pura demonstração de afeto ameaçada de extinção.

E para começar, tu, que leste este texto, te interessaste pelo assunto a ponto de dispor teu tempo, este precioso bem da atualidade, és uma pessoa boa, humilde, sensível e propensa à evolução. E te elogiar não me tornou menos bom, humilde, sensível e propenso à evolução. Muito pelo contrário.

Preserva o elogio! Nós precisamos disto!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 22-23)




quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Nada é por acaso... - Crônicas afônicas (2014)

NADA É POR ACASO...

O Paulo Afonso, rapaz de classe média-alta, desapercebido do mundo, acabou por molhar seu tênis novo-branco-e-de-marca numa poça d’água. Chateado, seguiu até a parada de ônibus intermunicipal. Estava cumprindo compromissos da faculdade na cidade vizinha pela manhã, e meio-dia retornava para casa. 

Chegando em casa, teve de trocar de roupa, visto que lhe agradara um sapatênis mais social que o atual calçado molhado. E o novo visual rendeu... A Ana Flávia, moça rica, lhe pôs os olhos de pronto; sua atenção fora chamada pelo rapaz bonito e bem apresentado. 

O tempo passa e com ele a vida segue adiante, um filme onde se pode ver o novo casal, unido pelo destino, pela fatídica poça d’água, enlaçar namoro.

No entanto, a moça rica era também faminta, tinha fome de sucesso, sucesso a qualquer custo. Modelo profissional, via sua vitória num certo concurso de beleza como algo essencial, vital. Tanto que subornou, conchavou, alinhavou, trapaceou, logrou, e conseguiu a almejada vitória. O que a Ana Flávia não previa era que seu namorado, pudico, desaprovaria seu comportamento, pois muitas vezes as armações da jovem saltavam aos olhos. 

Retrocedendo o filme, voltando ao ponto inicial desta pequena história, encontramos novamente a fatídica poça, a mesma que molhou o tênis do Paulo Afonso e uniu-lhe à Ana Flávia... Sobre a poça luzia o sol, queimava no céu anil. A poça bem que tentou resistir aos encantos solares, mas acabou por entregar-se ao seu calor e evaporou. Fez-se nuvem branca a beijar o sol no céu. E a nuvem branca, após passear de carona com os ventos, condensou-se e tornou-se chuva a refrescar a terra.

Enquanto o Paulo Afonso se arrumava para ir ao centro, após ter chegado da viagem, outra menina, a Cláudia, se aprontava e pretendia ir ao mesmo lugar, se cruzariam na mesma rua onde a Ana Flávia poria os olhos no rapaz. O problema foi que, no canto da cidade onde morava a Cláudia, moça de origem bem mais modesta que a modelo, choveu. A água da mesma poça que molhou o tênis novo-branco-e-de-marca do Paulo Afonso choveu sobre a Cláudia. Pobre moça. Esmaeceu. Desistiu de ir ao centro. Não cruzou com o Paulo Afonso. Sem querer, deixou o caminho livre para a rival que nem conhecera. Não conhecera sequer o seu amor, o Paulo Afonso. 

Muito linda, a Cláudia, meio a contragosto, também concorreu no mesmo concurso que a Ana Flávia “venceu”. Muito mais linda era a Cláudia. Seus olhos reluziam a delicadeza das nuvens, o lume do sol e o frescor do vento. Humilde de origem, mas muito mais de espírito – uma das mais nobres virtudes –, a Cláudia não venceu o concurso, mas ganhou o coração do Paulo Afonso. 

Seria mais fácil se o destino não aprontasse tanto, e deixasse o Paulo Afonso conhecer a Cláudia naquele dia fatídico em que uma poça d’água atrapalhou o amor por duas vezes? Mais fácil sim, mas não tão perfeito. A Ana Flávia não descobriria que os benefícios da desonestidade cobram um preço alto, o Paulo Afonso não contemplaria a beleza da simplicidade, e a Cláudia não teria certeza de que os seus valores valem a pena serem seguidos. Afinal, nada é por acaso...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 20-21)





terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Romance de pampa e sol - O livro dos espelhos (2011)

ROMANCE DE PAMPA E SOL

Despacito, o sol desnudava a pampa
com carícias tênues e luzidias
que pouco a pouco se tornavam amplas,
 
lhe trazendo matizes de alegria,
iluminando os campos deste amor
quando noite se transformava em dia.
 
Suspiros subiam ao céu: rubor
que à paixão denunciava a cada afago
que o sol imprimia à pampa, em calor,
 
e a noite fria com seu poncho amargo
ia dando lugar à pampa desnuda,
plena de todos amores do pago.
 
À luz do amor, o iluminado muda
sua tez que agora resplandece, brilha,
quando antes era opaca e sisuda
 
como as flores, que na noite das trilhas
se ocultam da visão do caminhante,
mas que ao sol, lhe acenam lá das coxilhas.
 
Assim, a pampa, em pele verdejante,
exalava dos poros seu perfume
enquanto o sol, mais e mais radiante,
 
estendia à sua amada tal lume
que, ao esmaecerem, as demais plagas
deste romance sentiam ciúme.
 
E o sol percorria as planuras largas,
se mirava vaidoso nos açudes,
roubava beijos da água das sangas,
 
e a pampa encantava aos homens mais rudes,
versejando amor em suave canção
soprada ao vento, que no céu se funde:
  
terra e céu, pampa e sol, agora são,
ao terno amanhecer que se faz dia,
um só ser, unido pela paixão;
 
e o romance ao longo das horas ia,
e o casal apaixonado se amava,
despercebido que o tempo esvaía...
 
Mas, na medida em que o tempo passava
– se ia sorrateiro, sem alarde –,
o romance ao final se aproximava,
 
porque enquanto o sol de amores arde,
esquece que seu fogo depois apaga
com o frio que impõe o cair da tarde.
 
O mesmo vento que ora o amor propaga,
agora sopra avesso a tal romance,
contentando a inveja das demais plagas;
 
e a pampa de luz, do amor que amanhece,
desposada pelo amante do céu,
se recolhe escura quando anoitece:
 
noite torna a vesti-la em negro véu,
cobrindo a vastidão ora ensolarada
que agora, prostrada, o lume perdeu;
 
sol gaudério pega o rumo da estrada,
deixando pra trás a diurna amante
– alvas lágrimas na quincha estrelada –.
 
Sangrado, o amor anuncia o poente
de um romance que fora ardente outrora,
descendo melancólico o horizonte.
 
Mas este rubor que se vê agora,
do amor fora atestado no amanhecer
e prenuncia que amanhã a aurora
 
fará, talvez, romance renascer
quando o lume do sol lumiar a pampa
e à sua pele carícias tecer,
 
percorrendo a geografia do campo,
sussurrando brisas ao pé do ouvido
enquanto aos poucos o dia se acampa.
 
E de terra e céu o amor desmedido,
que morre e renasce a cada arrebol,
assim, jamais quedará em olvido,
 
pois a cada nova manhã no sul,
reacenderá a chama do amor
num novo romance entre pampa e sol!

(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 91-93)




segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Do imigrante, em versos - O livro dos espelhos (2011)

DO IMIGRANTE, EM VERSOS

Os braços fortes regendo a lavoura,
agora a enxada é a sua batuta.
Música da terra, nova labuta.
Sementes notadas na partitura...
 
A clave de sol forte contra a fronte
e labor desde os clarins da alvorada.
Enquanto a plantação é orquestrada,
o passado renasce no horizonte...
 
Foi maestro de voz e de instrumento,
compositor de silêncio e de som,
mas a vida também muda de tom...
Impõe ao imigrante outro sustento.
 
Alegre nunca fora sua música...
Ânsia de vislumbrar mundo melhor.
Febres sonoras de amargo sabor
em valsas, polcas, chotes ou mazurcas.
 
Tampouco agora haveria de ser...
Embora sua lavoura gere vida,
jamais calarão as vozes feridas
que soam coral da alma do ser.
 
Expulso de sua terra natal
pelas mãos graves da fome e da guerra,
a cada golpe de enxada na terra
relembra trincheiras de sangue e sal.
 
Nada tão dissonante quanto a guerra...!
A obra polifônica infernal.
Não há luta justa, livre de mal,
quando vidas inocentes encerra.
 
E o imigrante que sabe do mundo
seus temores e suas esperanças,
com sua música ainda criança,
garatujas melódicas profundas...
 
Mas mesmo com tanto e todo o talento
deixou a sinfonia inacabada...
Trocou sua batuta pela enxada
quando a sorte lançou a pauta ao vento.
 
E, maestro ainda ante o universo,
faz música da terra germinar
com tanto ardor que amanhã haverá
que se contar do imigrante, em versos.

(Danilo Kuhn - O Livro Dos Espelhos, 2011, p. 87-88)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...