EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...
Nasce da terra fértil a dádiva da vida,
espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de aromas e formas a
crescer, amadurecer. Cada semente que germina é um ser que vem à Terra. Uma
alma que muita vez ganha mundo pelas mãos de seu carrasco. Vive a cabresto. Em
regime de servidão. Escrava de seu senhor.
Eis que o
ápice da vida da frondosa árvore lhe chegou. Enfim, deu frutos. Não há momento
mais realizador que este, ver-se prenhe de vida, plena de filhos. A felicidade,
que já quase não cabia em si, foi-lhe arrancada por mãos gatunas humanas e por
bicos de aves-de-rapina. Sequestro. Roubo. Impunidade.
Nutre-se no
ventre materno o leitãozinho porvir, confortável, aquecido. Suas faces serão
rosadas, o pelo amarelo-caramelo com meticulosamente artísticas manchinhas
negras. Fuçará a terra, ávido por descobertas, alheio ao seu futuro já traçado
desde antes da gestação. Nascerá para morrer. E não de causa natural. Sua morte
já está agendada. Na lista de espera do açougue. Mesmo destino de seus irmãos.
Vida nas mãos do carniceiro, no fio da faca se esvai.
Desmamado, o
pequenino e desamparado bezerro café-com-leite clama pelo seio materno, o calor
do peito, do afago de ganhar o sustento por meio de sua mãe. Chora em vão ao
ver o leite quente jorrar em baldes frios como o estanho, sem chegar ao seu
destino natural. Alma que coalha. Vida de gado.
A rondar o mar
segue o cardume, bailando sob as águas ao som do azul-profundo. Suas escamas
celestes refletem o lume róseo-amarelo do sol nascente. Por seu turno, o
pescador lhes joga anzóis famintos, vernizes de ilusão, malha-fina a enredar-lhes.
Debatem-se os peixes a bordo do barco da morte. Roubaram-lhes o ar.
Se Deus assim
fez, se esta é a Sua vontade, eu sou um herege. Um herege por discordar da Sua
ordem. Um herege por enxergar injustiça na opressão das plantas, na exploração
da produção, na manipulação dos rebanhos, nos desenganos do gado, nas iscas.
Por isso, eu quero me alimentar de luz. Que as lavouras sejam libertas. Que os frutos permaneçam nos braços de suas mães. Que os rebanhos sejam seus próprios pastores. Que o gado derrube as cercas. Que os cardumes deixem os anzóis intactos.
Para que o mundo viva em paz, eu quero me alimentar de luz...
(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 144-145)






