quinta-feira, 18 de abril de 2024

Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...

 

Nasce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de aromas e formas a crescer, amadurecer. Cada semente que germina é um ser que vem à Terra. Uma alma que muita vez ganha mundo pelas mãos de seu carrasco. Vive a cabresto. Em regime de servidão. Escrava de seu senhor.

Eis que o ápice da vida da frondosa árvore lhe chegou. Enfim, deu frutos. Não há momento mais realizador que este, ver-se prenhe de vida, plena de filhos. A felicidade, que já quase não cabia em si, foi-lhe arrancada por mãos gatunas humanas e por bicos de aves-de-rapina. Sequestro. Roubo. Impunidade.

Nutre-se no ventre materno o leitãozinho porvir, confortável, aquecido. Suas faces serão rosadas, o pelo amarelo-caramelo com meticulosamente artísticas manchinhas negras. Fuçará a terra, ávido por descobertas, alheio ao seu futuro já traçado desde antes da gestação. Nascerá para morrer. E não de causa natural. Sua morte já está agendada. Na lista de espera do açougue. Mesmo destino de seus irmãos. Vida nas mãos do carniceiro, no fio da faca se esvai.

Desmamado, o pequenino e desamparado bezerro café-com-leite clama pelo seio materno, o calor do peito, do afago de ganhar o sustento por meio de sua mãe. Chora em vão ao ver o leite quente jorrar em baldes frios como o estanho, sem chegar ao seu destino natural. Alma que coalha. Vida de gado.

A rondar o mar segue o cardume, bailando sob as águas ao som do azul-profundo. Suas escamas celestes refletem o lume róseo-amarelo do sol nascente. Por seu turno, o pescador lhes joga anzóis famintos, vernizes de ilusão, malha-fina a enredar-lhes. Debatem-se os peixes a bordo do barco da morte. Roubaram-lhes o ar.

Se Deus assim fez, se esta é a Sua vontade, eu sou um herege. Um herege por discordar da Sua ordem. Um herege por enxergar injustiça na opressão das plantas, na exploração da produção, na manipulação dos rebanhos, nos desenganos do gado, nas iscas.

Por isso, eu quero me alimentar de luz. Que as lavouras sejam libertas. Que os frutos permaneçam nos braços de suas mães. Que os rebanhos sejam seus próprios pastores. Que o gado derrube as cercas. Que os cardumes deixem os anzóis intactos.

Para que o mundo viva em paz, eu quero me alimentar de luz...

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 144-145)


quinta-feira, 11 de abril de 2024

Insônia - Crônicas afônicas (2014)

 INSÔNIA

 

Dormir é deixar de viver, é morrer por vontade própria, é praticamente suicídio, cerrar os olhos, fechar as cortinas, cruzar os braços, abster-se, acovardar-se, entregar-se.

Enquanto a vida segue lá fora, você se vira na cama para dormir a manhã de domingo. Enquanto o mundo gira, você se deixa inerte para sestear a tarde ensolarada. Enquanto a luta continua, você se rende à letargia vespertina. Enquanto as estrelas cadentes dançam e a lua acena, você se esconde debaixo das cobertas.

A insônia é um presente, embala ideias, rabisca planos, traça metas, rascunha a vida. Insones sonham acordados. Insones acordam madrugadas, despertam noites, alumbram breus.

O sono adormece grandes feitos, evita amores, retarda a produção, encerra trabalhos inacabados, posterga realizações, atrasa, interrompe, paralisa. Quem dorme abandona o mundo, deixa-se à própria sorte, à deriva.

Durma apenas o necessário, nunca tanto quanto você gostaria. Abra os olhos para a vida!

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 142)




terça-feira, 2 de abril de 2024

Desculpe-me, tenho andado com tanta pressa - Crônicas afônicas (2014)

DESCULPE-ME, TENHO ANDADO COM TANTA PRESSA

 

Desculpe-me, tenho andado com tanta pressa... que olhar para o lado significa desvio de percurso. Ontem, cansado do dia, na volta para casa, não cumprimentei meu antigo colega de escola, para não perder segundos, para não gastar um sorriso. Hoje pela manhã, ao sair de casa, não fiz carinho no meu cachorro, que me acenava com o rabo, pois teria de voltar para lavar as mãos. No caminho para o trabalho, não desejei bom dia ao senhor que me olhou, cortês, porque despenderia muita energia em desfazer meu semblante sisudo e meu cenho cerrado. No escritório, não notei a arte pendurada nas paredes. No almoço, não senti a fragrância dos temperos, nem o sabor dos molhos – e chupar uma bala sem mordê-la se tornou um exercício de paciência tão exigente... comparável à mais plena meditação. Não vi as flores que me tentaram a atenção, com suas cores sedutoras. Sequer percebi o perfume que o amor exalava ao passar por mim incontáveis vezes, em vão. Não olhei para o céu estrelado a fim de não diminuir a velocidade do carro. Não me refresquei na chuva para não me molhar. Não olhei para trás porque não havia nada de importante lá...

Quem vive com muita pressa acaba deixando-se para trás.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 140)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...