quinta-feira, 27 de abril de 2023

Brava gente brasileira - Crônicas afônicas (2014)

BRAVA GENTE BRASILEIRA

 

Os braços que se vão regendo a lavoura empunham agora a enxada em vez da batuta. Música-da-terra é a sua nova labuta: sementes notadas na partitura. A clave-de-sol-forte lhe escalda a fronte, e o labor desde os clarins da alvorada lhe consome as idades. E enquanto a plantação é orquestrada, o passado renasce no horizonte: foi maestro de voz e de instrumento, compositor de silêncio e de som, mas sentiu a vida mudar de tom, impondo-lhe a si, imigrante, um novo sustento. Alegre nunca foi sua música, por ânsia de vislumbrar um mundo melhor – febres sonoras de amargo sabor em forma de valsas, polcas, chotes ou mazurcas. Tampouco agora haveria de ser... Embora sua lavoura gere vida, jamais calarão as vozes feridas que ecoam em coro do âmago do ser.

Foi expulso de sua terra natal pelas mãos graves da fome e da guerra, e a cada golpe de enxada na terra relembra trincheiras de sangue e de sal. Nada é tão dissonante quanto a guerra, a obra polifônica infernal. Não há luta justa, livre de mal, quando vidas inocentes encerra...

O imigrante que provou do mundo os temores e as esperanças, com a sua música ainda criança já presenteava almas com garatujas melódicas profundas. Mas mesmo com tanto e todo o talento, teve de deixar a sinfonia inacabada... Trocou a sua batuta pela enxada quando o malogro lançou a pauta ao vento... Mas ainda assim fazia música da terra germinar, pois maestro continuava a ser perante o universo.

E foram tantos os imigrantes que ao Brasil desbravaram e ergueram, abriram picada e fizeram indústria, plantaram sustento e sustentaram Estado. Alemães, italianos, e outros tantos, órfãos de terra, plenos de lavouro.

Braços fortes para a enxada. Cenho cerrado para o horizonte. Pulso firme. Sempre avante.

Imigrantes: brava gente brasileira.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 76-77)




segunda-feira, 24 de abril de 2023

Coração partido - Crônicas afônicas (2014)

CORAÇÃO PARTIDO

 

Há noites em que a conjuntura do universo, a disposição dos astros e a influência lunar nos tornam mais suscetíveis. Numa dessas noites, Jacó sonhou. Sonhou e pelo sonho se deixou transportar.

O sol matinal do inverno esquentava os campos, brandamente, e no carro com sua família Jacó teve uma ideia e dela se riu. Seus familiares se riram também, mas não se riam por deboche, Mas é mesmo, disse a madrasta, Tu já pensou, indagou animada a namorada, Tu te elege, palavra, afirmou exclamante o pai. A ideia precursora das risadas e dos comentários era a possível candidatura de Jacó a vereador na eleição do ano seguinte. Jacó é conhecido na cidade, um artista, rapaz educado e bem-apessoado e que, além disso, é muito estudioso, sente-se capaz de estudar o que for preciso para tornar-se um bom político.

Embora sua ideia lhe tenha parecido primeiramente um tanto despropositada, ele aos poucos começou a interessar-se pela mesma. Viu nela a possibilidade de aperfeiçoar-se como ser humano, de poder ajudar as pessoas e organizar e qualificar sua cidade. Buscou livros sobre política em geral, manuais sobre as atribuições de um vereador e de um bom político, leis sobre a vereança, estratégias de campanha, guias de administração pública, mas também livros com maior amplitude intelectual, como os de filosofia, de retórica, de teoria do discurso, ciências políticas e sociais, e poesia. Para Jacó, um bom político deve ser um grande homem, uma pessoa preparada intelectualmente para pensar, levar a cabo e administrar grandes ideias.

Assim, durante horas, dias, semanas, meses, Jacó concentrou seu pouco tempo livre para dedicar-se ao estudo e ao planejamento de sua candidatura. Elaborou discursos, efusivos, construiu argumentações para debates, sempre eloquentes, estruturou minuciosamente suas propostas. Por muitas vezes discordou de seu material de estudo, pois havia sugestões não muito éticas nos mesmos. Noutras tantas, alimentou seu sonho de tornar-se um bom político e um grande homem, inspirando-se principalmente na filosofia e na arte. Enquanto artista, e, portanto, sonhador, imaginou ações e programas sociais capazes de aprofundar as pessoas, de torná-las mais sensíveis e críticas a partir da boa arte. Vislumbrou organizar orquestra, coral, corpo de teatro e de dança municipais, todos estes com enfoque social e, é bom que se diga, com a devida preocupação com o seu financiamento: programas de incentivo à cultura e estratégias de captação de recursos apontados na ponta do lápis. Ademais, trazia na ponta da língua as várias frentes de campanha que criara não só para a cidade, mas também para o interior.

Porém, nem tudo são planejamento e estudo e boa vontade, é preciso agir. Jacó, então, entorpecido pela sua empolgação, tratou de filiar-se a um partido político, o da situação na prefeitura da cidade, mas o fez sem a devida reflexão. Ele conhecia o prefeito, conhecia muitas pessoas daquele partido, embora nunca houvesse militado para este. Tratava-se de um partido grande, da situação há um bom tempo, organizado em seus interesses gerais e individuais, muitas pessoas envolvidas com a causa partidária, muitos militantes.

Eis o problema, caro leitor. Jacó sempre foi muito crítico, sempre fez questão de pensar com sua própria cabeça, coisa de artista. Num partido político, as pessoas costumam fechar os olhos aos erros de seus correligionários – embora percebam este contrassenso –, defender as decisões partidárias com afinco – mesmo que isto contrarie seus ideais –, e favorecer colegas de partido com cargos ou candidaturas de acordo com sua contribuição e doação, muitas vezes estritamente em campanhas ou em eventos públicos e outras práticas eleitoreiras.

Nem é preciso terminar de contar a estória para concluirmos seu final. Jacó se deparou com uma realidade não imaginada por ele. Pensou, desde a concepção da ideia, que sua possível candidatura seria avaliada e abalizada de acordo com os termos do merecimento. No entanto, pôde observar e experimentar na pele que, numa organização partidária, vários outros critérios, menos éticos, são utilizados para as prévias eleitorais. Sequer teve oportunidade de apresentar suas ideias. Foi orientado a primeiro ‘fazer seu nome’ no partido.

Não vejo, obviamente, apenas demérito num partido político. Partir a política é necessário, partindo do princípio que existem ideias, ideais, ideologias totalmente incompatíveis. O problema é sepultar a ética e a opinião própria em nome de uma lógica partidária contra sua própria ideologia ou ideais ou ideias. É preciso ter estômago para tal.

No caso de Jacó, seu partido é um coração partido. Um artista, com profundidade, não é raso o suficiente para a política.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 72-74)




quarta-feira, 19 de abril de 2023

De amigo pra amigo - Crônicas afônicas (2014)

DE AMIGO PRA AMIGO

 

Amigo é irmão que se escolhe, membro da família elegido por indicação direta, parente por vontade, ente querido voluntário. Por vezes, entende-nos e nos compreende mais e melhor que nossa própria família, ajuda-nos, aconselha-nos e nos incentiva de maneira mais eficaz e sincera.

Amigo é o abraço que acolhe e saúda. Seja num momento de dificuldade, quando se precisa de acolhida ou guarida, seja num reencontro efusivo e saudoso, quando o que mais se quer é demonstrar o carinho e o afeto de um para com o outro; o abraço aos amigos enlaça.

Amigo não corta, nem tolhe. É capaz de abrir mão de si próprio para benefício do outro. Amigo é amar ao próximo. Amigo é a mão que planta e colhe amizade.

Amigo contigo se importa, é a voz e o ombro que conforta. Amigo ao outro é uma porta, uma porta de um para o outro, uma ponte entre pessoas. Algumas pessoas são quase intransponíveis, não constroem pontes verdadeiras; em lugar, abrem apenas uma fresta da janela da sua casa interior, geralmente para uma espiadinha no mundo dos outros lá fora, e para mostrar o mínimo ou uma falsa impressão do mobiliário de suas salas. A internet, inclusive, mostra-se como uma janela ideal para tal, para cada vez mostrar menos de si e espiar mais dos outros. Mas o dia a dia também se mostra receptivo a este tipo estranho de amizade: colegas de aula, em escolas de ensino fundamental e médio e de nível superior, são capazes de passar anos estudando na mesma sala e não estreitar laços; colegas de trabalho podem passar uma vida trabalhando lado a lado, alcançando-se ferramentas ou peças, sem construírem pontes, sem serem portas um ao outro; até mesmo casais conseguem a façanha de viverem juntos sem serem amigos, sem amizade, sem amor.

Evidentemente, não se precisa nem se consegue ser amigo de todo mundo. Existem algumas diferenças entre pessoas que impossibilitam tal feito. E também existem amigos que sabemos que não são nossos amigos realmente e, portanto, com estes, não construímos pontes. Isto é normal. Além disso, às vezes também construímos pontes de uma só via, de mão-única, pois não há uma troca, não é recíproco: somos amigos, mas não recebemos amizade de volta. Só vai, não volta.

No entanto, e não importa que sejam poucos, existem os verdadeiros amigos, aqueles do lado esquerdo do peito, aos quais devemos cultivar. Aqueles que mesmo com suas diferenças para conosco, porque ninguém é igual a ninguém, conosco constroem pontes de mão-dupla; para nós são uma porta, uma porta de um para o outro; seu apreço não tem preço. E embora não seja necessária nenhuma troca de favores, invariavelmente a relação de amizade verdadeira é recíproca, é mútua, é uma troca.

Nós seremos bons amigos quando ou enquanto formos um para o outro um abrigo. Eu contigo, tu comigo, de amigo pra amigo.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 70-71)







quinta-feira, 13 de abril de 2023

Crônica de inverno - Crônicas afônicas (2014)

CRÔNICA DE INVERNO

 

         No inverno sempiterno do meu coração, onde o sol não brilha nem aquece, onde o vento sopra pungente, onde a neve encobre e sufoca toda e qualquer vegetação ou forma de vida, uma rosa de gelo cultivo com esmero. Foi-me rósea herança de uma outra estação, de quando a vida florescia em primavera.

         Rosa cálida de tantas palavras vãs sussurradas ao pé do ouvido do infinito, que ecoaram a esmo pelos abismos do meu peito sem se fazerem ouvidas; rosa pálida de tantos desenganos a esmaecer-lhe e roubar-lhe o viço; rosa gélida a contemplar amanheceres sem manhãs, sem abrir ao sol suas pétalas de vidro.

         Meu coração já não bate, treme de frio. Ele outrora fora brasa a arder em calor, agora congela, padece em calafrios. Em estação passada, batia com vigor, sempre avante pelos confins dos jardins, porém, desprecavido. Não soubera a tempo que é nestas estações abundantes que se estoca mantimentos: deve-se estar preparado para o inverno do amor.

         Ainda assim, rego com lágrimas a flor; lágrimas que me descem a face num gelado caudal; que me vertem dos olhos estilhaçados e que, antes de tocarem o chão, já se veem cacos de gelo.

Quem sabe uma taça de vinho tinto devolva à minha rosa o rubor; quem sabe o frio intenso aproxime corpos gelados; quem sabe a sustância das massas e dos molhos ou o aconchego que a lareira traz a dois e somente a dois, pois do contrário é apenas solidão, reaqueça o coração ou abrande seus tremores; quem sabe, General Inverno, quem sabe. Quem sabe? Hoje, sou apenas inverno à espera da primavera do amor.

(Danilo Kuhn - Crônicas afônicas, 2014, p. 68-69)




quinta-feira, 6 de abril de 2023

Terreno pantanoso - Crônicas afônicas (2014)

TERRENO PANTANOSO

 

Ele pensava estar caminhando sobre uma bucólica e inocente e florida vereda verdejante à luz do sol, embora sem enxergar onde pisava haja vista a noite na floresta. Pensava já ter percorrido aquele caminho vezes suficientes para garantir segurança a seus passos. Ledo engano. Quando deu por si, encontrava-se em terreno pantanoso.

O fato de não se enxergar onde se pisa não necessariamente pressupõe medo quando se conhece o caminho; mas não se saber, de fato, onde se pisa, é angustiante. E pode ser ainda pior: identificar onde se pisa e classificá-lo como perigoso.

Agora sim, a noite parecia mostrar-lhe a verdadeira face sombria e desesperadora. Os costumeiros sons noturnos da floresta ao alcance da sua audição ganharam tons dramáticos quando ele começou a ouvir seus pés atolando-se no lodo sob a água fria e animais mergulhando e debatendo-se em todas as direções; animais voadores batiam e rebatiam suas asas entre revoadas e sobrevoadas ameaçadoras, soltando suas vozes ferozes e agudas e estridentes que cortavam feito faca e ecoavam na imensidão oculta; pegajosos mantos de teias de aranha se lhe grudavam na face, enquanto suas donas lhe desciam o pescoço, o qual ele golpeava com as mãos rápida e temerosamente; gritos graves e assustadores de animais, à sua impressão, de grande porte, o aterrorizavam; o gélido vento que começara a soprar doava o pano de fundo sonoro precisamente perfeito para aquela sinfonia do horror.

De repente, ele já não mais conseguia elevar os passos, e sentiu seus pés afundando-se cada vez mais ao pântano malcheiroso e sedento. O desespero agora se transformara em espera, espera pela morte, espera pela hora maldita de finalmente ser engolido por aquele umbral de sofrimento.

No entanto, como um protesto final ante a penumbra do seu destino, a pobre alma ergueu os braços, na esperança redentora de alguma intervenção divina, ao passo que gritou: “Me perdoa, meu Pai”! O infeliz vivente, à beira da morte, bradou ao universo seu arrependimento, como se bastasse para apagar todos seus erros, todo o sofrimento que provocou, todas as verdades que ocultou, todas as vezes que fraquejou.

Mas nem só de erros, sofrimentos, mentiras e fracassos somos feitos, e Ele sabe disto. Nisto foi que o agonizante bate com um dos braços em um galho seco de uma árvore qualquer, e o agarra firme, primeiro com uma das mãos, depois com as duas. Pensou em erguer-se e tentar seguir caminho, mas preferiu esperar o dia amanhecer...

Assim, no instante em que o dia clareou, mandando para a toca e para as profundezas todos os seres horrendos daquele purgatório, ele finalmente se ergueu e pôde vislumbrar um caminho seguro de volta para a casa...

Antes de segui-lo, porém, ele olhou para cima, a fim de agradecer a Ele, e então viu que, naquele exato galho seco e somente neste e em mais nenhum de todo o pântano, havia uma bela e solitária flor a dar-lhe bom dia. E ele regressou à terra firme com a aprendizagem que somente os terrenos pantanosos d’Ele são capazes de ensinar.

(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 66-67)




segunda-feira, 3 de abril de 2023

Dia dos namorados - Crônicas afônicas (2014)

DIA DOS NAMORADOS


Eu namoro teu olhar, que te denunciou desde a primeira troca de olhares; namoro o brilho dos teus olhos, que emana o amor que eu e tu vemos um no outro; namoro teus olhos fechados enquanto nos beijamos.

Eu namoro teu sorriso, e suas muitas conotações; namoro teu sorriso bobo ao me encontrares de surpresa, teu sorriso meigo enquanto trocamos carinhos, teu sorriso trêmulo diante da primeira-vez, teu sorriso tenso por ciúme ou preocupação.

Eu namoro teu corpo a entrelaçar-se ao meu; namoro tuas mãos nas minhas a guiar-me num passeio tranquilo, tua respiração na minha de tal forma que já não se distingue uma da outra, teu bater-de-coração ao meu a ditar o ritmo do amor, tua pele na minha arrepiando cada pelo.

Eu namoro nossas semelhanças; gostamos um do outro, cuidamos um do outro, torcemos um pelo outro, desejamos um ao outro, sentimos saudade um do outro, nos preocupamos um com o outro. Que falta me fazes quando estou no trabalho, lavorando pelo meu e o teu e o nosso futuro! Parece que falta um pedaço de mim quando tenho que viajar e ficamos longe... E para ti eu sei que assim também o é.

Eu também namoro nossas diferenças; feijão-com-arroz, queijo-com-goiabada, dia-e-noite, sol-e-lua, luz-e-sombra, som-e-silêncio, eu-e-você, tudo que é diferente assim o é para completar-se. Eu-e-você-Você-e-eu é o nós que nos une, o nó que nos une, nosso laço, nosso enlace, nosso elo.

É tão bom saber que não navego a sós neste mundo de águas turvas; é tão bom saber que não navego sem rumo nesse mar sem farol; é tão bom saber que não navego em vão, enfrentando a fúria das tempestades e a melancolia das águas calmas; é tão bom navegar contigo, navegar em ti, descobrir teus sete mares, desbravar as tuas terras, encontrar o teu tesouro. Eu quero naufragar em ti!

Namorados: n’amor a dois. No amor, o ‘um’ sozinho não existe. Mesmo enquanto só, o ‘um’ ama a outro ‘um’. O ‘eu amo’ precisa de um ‘você’. O amor pressupõe o dois. N’amor a dois. Eu te namoro, tu me namoras: n’amor a dois.

EU TE AMO! Eu te namoro, e tu me namoras. Somos namorados! Somos n’amor a dois!

(Danilo Kuhn, Crônicas afônicas, 2014, p. 64-65)




Eu quero me alimentar de luz - Crônicas afônicas (2014)

EU QUERO ME ALIMENTAR DE LUZ...   N asce da terra fértil a dádiva da vida, espreguiçando-se em tons de verde-broto. Uma infinidade de ar...